Paris dos relógios, das vidas entrecruzadas, dos sonhos, dos segredos por desvendar, dos lares por encontrar.

Tal como nas peças dos relógios não há peças sobressalentes, também na vida humana há uma razão para cada um de nós existir e fazer o mundo funcionar. Assim pensa o peculiar protagonista do filme que estreia hoje nas salas de cinema portuguesas, A Invenção de Hugo, e que promete dar luta na corrida à edição dos Óscares deste ano, para a qual parte com 11 nomeações.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) tem apenas 12 anos mas uma missão bem delineada a cumprir. Após perder o seu pai num fatídico incêndio, é obrigado a ir viver com um tio seu para a estação de comboios onde este fazia a manutenção dos relógios. O pequeno rapaz de expressivos olhos azuis vê-se obrigado a abdicar de tudo, exceto de um objeto que acredita poder trazer-lhe uma mensagem do pai – um autómato.

A partir daí, Hugo começa a consertar variadas coisas. Não só o autómato, mas também vidas e sonhos. Neste processo, Hugo conta com a ajuda da curiosa Isabelle (Chloë Grace Moretz), ansiosa por viver aventuras para além dos livros. Isabelle é também afilhada de George Méliès (Ben Kingsley), o proprietário de uma loja de brinquedos, que esconde o grande e belo segredo que acaba por dar a toda esta história uma outra dimensão.

Um filme onde tudo se parece encaixar, tal qual as peças de um relógio. Tal como Hugo, o espetador é confrontado com um processo de descobertas constantes. Nenhuma personagem surge ao acaso, todas elas trazem uma mensagem, uma missão na vida, tal como preconiza a máxima do protagonista. Todas as vidas estão ligadas e uma simples chave com forma de coração poderá fazer-nos perceber como.

Martin Scorsese arroja e bem. Os planos que o realizador nos oferece são pura beleza visual. Uma originalidade e exatidão a filmar como poucos, mesmo quando acompanha os percursos bastante movimentados do protagonista no interior das paredes da estação onde este acaba por fazer a manutenção dos relógios após o desaparecimento do tio. Sentimo-nos no interior dos relógios, a fazer o mesmo percurso que Hugo Cabret, ao acompanharmos o movimento da câmara. Até o tiquetaque sonoro constante nos faz ver a beleza que é o encaixe perfeito das rodas do relógio.

Se há um filme onde o 3D é essencial, A Invenção de Hugo é o nome a indicar. A história ganha realmente profundidade com a introdução desta tecnologia. A quantidade certa, nas cenas certas, no minuto certo. Scorsese soube como arriscar e como aproveitar ao máximo o potencial desta nova possibilidade cinematográfica.

O que também vem em dose certa é o humor, sobretudo através das personagens que se encontram na estação. O inspetor, interpretado por Sacha Baron Cohen, é o grande destaque desta vertente do filme, ao representar um homem que procura mostrar uma imagem austera e cumprir a lei mas que quando toca aos assuntos do amor não sabe o que fazer. Outras personagens, animais incluídos, acabam por dar à praça da estação um ambiente bastante divertido e que nos faz soltar múltiplos sorrisos.

Não há uma única interpretação que nos deixe desapontados. Obviamente que o destaque vai para Asa Butterfield que, apesar de tenra idade, nos traz uma interpretação sólida e consistente. O rapaz prova que foi a escolha certa para o papel, conseguindo prender-nos e levando-nos aos seus sentimentos mais profundos. A prova da maturidade de Butterfield já tinha sido dada em O Rapaz do Pijama às Riscas, mas com Hugo Cabret consolida o seu talento.

Outro dos grandes destaques do novo filme de Martin Scorsese é a banda sonora que acompanha a ação. O ambiente musical tão característico de Paris é-nos trazido de uma forma bastante clara. Os nossos ouvidos sentem-se na capital francesa, num traço musical muito característico, bem ao estilo de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

A Invenção de Hugo é a grande homenagem aos primórdios do cinema, ao trazer o nome de George Méliès bem como a sua história. O primeiro filme de ficção científica do cinema, A Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune), ganha honras de destaque na própria película.

Desaparecido durante 109 anos, o filme realizado em 1902, inspirado em livros de Júlio Verne e H.G. Wells, foi redescoberto em Barcelona e restaurado imagem a imagem, num total de 13 375. Ao integrar o novo filme de Scorsese servirá certamente para despertar consciências e curiosidades para o trabalho do pioneiro George Méliès. A imagem da Lua com um foguetão espetado no olho poderá finalmente integrar o imaginário cinematográfico de muitos.

A Invenção de Hugo é um filme sobre o qual fica sempre muito por dizer. A película é transparente, dá-se a ver a si própria no ecrã, não deixa nada por contar. Um filme onde a ficção e a realidade se misturam de uma forma soberba. O encontro entre a genialidade de dois nomes de épocas e estilos tão diferentes da mesma arte, o cinema.

Se A Invenção de Hugo arrecadar o Óscar de Melhor filme na cerimónia de 26 de fevereiro, será com toda a certeza um justo vencedor.

9/10

Ficha Técnica:

Título original: Hugo

Realizado por:  Martin Scorsese

Escrito por: John Logan, a partir do livro de Brian Selznick

Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Chloë Grace Moretz, Christopher Lee, Jude Law, Helen McCrory

Género: Aventura, Familiar, Drama

Duração:  126 minutos