Saiu recentemente o muito aguardado Old Ideas, o décimo segundo álbum do cantor e compositor canadiano Leonard Cohen, que foi oficialmente posto à venda no dia 27 de janeiro. Apresenta 10 temas cheios de doces melodias, com a unidade de sempre nas composições.

Aos primeiros segundos de Going Home já nos apercebemos que a profundidade e calma, características da voz forte e intensa de Leonard, se conservam neste seu novo trabalho. A sabedoria e a paz que a letra da primeira faixa transmite é clara como água e inicia do mesmo modo que termina, numa quadra de quase alter-ego, em que o cantor fala mal dele mesmo, como se de outra pessoa se tratasse: «I love to speak with Leonard/ He’s a sportsman and a shepherd/He’s a lazy bastard/Living in a suit».

É neste tom que seguimos para Amen, título sugestivo, e bem adequado quando nos apercebemos do tom gospel que têm todas as canções deste álbum, estando Leonard sempre bem acompanhado por coros de vozes femininas. Neste tema a suavidade da voz principal e, ao mesmo tempo, a sua intensidade é acentuada, à qual se junta o amor, a embriaguez, com este tom sagrado: «Tell me again when i’m clean and i’m sober/Tell me that you need me then/Amen.»

Mas é na terceira faixa que me começo a demorar e a beber cada palavra que discorre esta letra sobre amor e escravidão, sinónimos nesta composição, Show Me The Place, na minha visão, das mais belas canções deste Old Ideas. Com o brilho e magia de Suzanne, dos seus primeiros anos, com o amor de Dance Me To The End Of Love, transmite esperança e faz-nos ouvir violinos que tocam à alma.

Mas a beleza não se fica por aqui. Mais há que exaltar neste álbum. Para o octogenário Leonard os anos parecem só ter aumentado a capacidade de escrever e cantar bem o amor ou amores da sua vida, mas também o lado mais sombrio da existência. Darkness, como o nome indica, é a mais obscura das composições que nos traz este Old Ideas, fala do fim da vida, da morte que a todos espera e atormenta: «I got no future / I know my days are few.»

Em canções como Crazy To Love You, Anyhow, Lullaby ou Different Sides, Leonard Cohen dá-nos a conhecer estórias de amores difíceis, não correspondidos ou de amor-ódio, sempre de modo calmo e como quem busca perdão dos erros. Anyhow é exemplo disso: «I know it really is a pity/ The way you treat me now/ I know you can’t forgive me/But forgive me anyhow» ou «Even hough you have to hate me/ Could you hate me less?» são frases marcantes desta canção. Ainda que o cantor admita nessa mesma letra, «both of us are guilty», o que em casos amorosos é uma verdade (quase) sempre incontestável. Mas nem só de implorar o perdão vive este disco, Crazy To Love You é mais um hino ao arrependimento por amar alguém que não merecia esse amor e pela escolha do desejo em detrimento de sentimentos mais profundos, que se comprova errada: «i’m tired of choosing desire», confessa-nos nesta canção.

Em Come Healing ou Banjo é mais o lado espiritual de Cohen que impera, numa atmosfera marcadamente gospel, com coros de vozes femininas a encher os corações com mensagens de cura do espírito e renovação dos corações partidos.

 Depois de uma Lullaby que evoca o amor impossível ou pelo menos pouco provável entre opostos, gato e rato, que se apaixonam e são comparáveis ao vento que sempre agita as folhas das árvores. É balada das baladas, que nos envolve e sussurra nas nossas cabeças.

Para fechar, e com chave de ouro, Leonard escolhe o exaltar dos lados opostos: Different Sides; uma ode à dualidade de dois espíritos que um dia se amaram. Para o ajudar ouve-se a voz feminina e muito característica de Dana Glover, em dueto com a dele: «Both of us say there are laws to obey/ But frankly I don’t like your tone/You want to change the way I make love/I want to leave it alone»

Não será fácil deixar de ouvir este álbum de fio a pavio, pois nele tudo encaixa e flui em conformidade com os primeiros temas deste Leonard Cohen que é o mesmo ao longo de tantos anos. As ideias podem ser velhas, mas são as melhores de pôr em prática, mais que não seja porque tiveram o tempo suficiente para amadurecer.

Nota Final: 9,5 em 10. 

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945