Um palco despido, totalmente negro e em redor inúmeros instrumentos musicais e utensílios vários, que servem para ornamentar o espetáculo de música e movimento. Este é o cenário singular em que as personagens da peça As aventuras de João Sem Medo vão delineando a história deste conto fantástico, da autoria de José Gomes Ferreira.

Entre o mundo real e o imaginário existe um muro, através do qual ninguém tem coragem de atravessar. Apenas o destemido, ou simplesmente fingidor de coragem, João Sem Medo ousa resistir ao conformismo instalado e saltar para lá do muro, das fronteiras do seu mundo. Cansado das choraminguices dos seus pares e do ambiente enfadonho de lamúrias na terra Chora-Que-Logo-Bebes,  o rapaz tenta encontrar uma resposta no outro lado tão temeroso e apetecível. Contudo a sua jornada torna-se mais árdua do que aquela que imaginava.

João Sem Medo é o herói que dá nome à peça de teatro, que estreia hoje no Teatro D.Maria II, com encenação de João Mota. A personagem principal é descrita pelo seu autor, José Gomes Ferreira, como “valente e refilão, sem idade determinada, a fim de cada um lhe desenhar o perfil e atribuir a idade que lhe desejasse”. As características físicas pouco importam. Aliás, a falta desses atributos permite que a personagem seja facilmente “vestida” por qualquer pessoa da audiência.

Os atores com uma indumentária negra e impessoal incorporam as mais variadas personagens. Todos eles vestem a pele de João Sem Medo, pois cada um de nós pode colocar o pequeno gorro branco de riscas negras que dá vida ao protagonista destas aventuras.

É interessante o recurso a elementos exteriores à cena para enriquecer o espetáculo, tais como instrumentos musicais que são tocados ao vivo, bolas de sabão, serpentinas e confetis. Outro aspeto a realçar na peça é a introdução da voz do criador de João Sem Medo, José Gomes Ferreira, no decorrer da ação. O autor, enquanto narrador da história, através da voz off interpela os atores e intervem na história, de modo a salvar o herói das garras indomáveis do medo.

A caminhada por este mundo imaginário desperta-nos para a crítica da nossa sociedade. Por meio de metáforas e alusões a monstros de três bocas, homens sem cabeça, pedras falantes, caminhos sufocados por regras e uma liberdade ilusória, conseguimos reconhecer que a nossa realidade não está muito longe dessa terra de fantasia. Conclui-se então que vivemos num mundo de pernas para o ar, em que por vezes quem nos rege não tem a competência necessária, que premeia os que vivem em função das aparências e cujas bocas expulsam palavras automáticas, desprovidas de valor, sem recurso ao pensamento.

No final da viagem, João Sem Medo opta por voltar à realidade. Entre o mundo real e o meio imaginário não há grandes diferenças, ambos estão encurralados  num sistema sem sentido, desprovido de esperança, queixando-se de tudo e de nada, vertendo lágrimas sem fim, mas pelo menos existem pequenos momentos reais que surtam saudade e são insubstituíveis, como o típico bacalhau com batatas. Apesar da forte critica, a peça termina com uma mensagem otimista: mesmo nas adversidades, deve ser-se feliz com as vitórias e dar valor aos pormenores da vida.

As aventuras de João Sem Medo conta com as interpretações de ilustres atores: Alexandre Lopes, Hugo Franco, Marco Paiva, Mia Farr, Miguel Sermão e Tânia Alves.

Este conto pouco convencional, repleto de significado, é dirigido tanto miúdos como a graúdos e está em cena no Teatro D. Maria II de 10 de fevereiro a 21 de abril, de quarta a sexta na Sala Garrett.