Uma das mais reconhecidas obras de Almeida Garrett chega agora ao teatro fundado pelo escritor português. Frei Luís de Sousa é a proposta da Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II de 9 a 29 de fevereiro.

Diogo Bento e Inês Vaz dão um novo toque à obra clássica de Garrett, trazendo-a para a atualidade e integrando-se como elementos da mesma. Constituindo a terceira parte de uma trilogia, seguindo-se a Han Shot First e I Love Broadway, Frei Luís de Sousa encerra assim um trabalho sobre o ato teatral e a criação de uma ficção acerca dos próprios criadores.

Diogo e Inês, ao representarem um texto carregado com a importância que tem Frei Luís de Sousa, “ficcionam a sua própria consagração e assumem a sua maturidade artística fazendo um autor conceituado, um texto canónico” cujas palavras são proferidas “em sua própria casa”.

No início do espetáculo, os criadores fazem-nos refletir sobre a importância de acreditar, mesmo quando tudo à partida parece apontar para um destino encerrado e decidido. A vontade de querer mudar o mundo e acreditar nas múltiplas possibilidades do futuro, mesmo quando é certo que a protagonista do texto garrettiano, Maria, vai morrer.

O amor é um dos valores porque lutam na sua vontade de mudar aquilo que está definido à partida. A esperança de um amor “que nos faça tremer da cabeça aos pés e nos tire o sono”, porque tudo é possível desde que acreditemos. Assim como foi possível os criadores chegarem ao Teatro Nacional D. Maria II para apresentarem o seu projeto.

O texto original de Frei Luís de Sousa mistura-se com as reflexões e opiniões dos próprios artistas que se veem na responsabilidade de interpretar o drama que Garrett escreveu. Encarnando as várias personagens, numa mistura interessante de acompanhar, fazem a triste e dramática história, estreada pela primeira vez naquele mesmo teatro em 1850, parecer cool e descontraída, apesar da ação pesada que se desenrola.

O humor e o ar pouco sério com que os atores se levam contribuem para que tudo pareça não mais do que um ensaio. Um ensaio de um projeto cujas dimensões os ultrapassam, estando os criadores bem cientes disso.

E logo no início nos convidam a entrar na sua visão, nesta original adaptação, na sua casa, na “casa de Garrett“. Quase em momento algum se parecem abstrair da presença do seu público, para quem olham e falam, por diversas vezes. Fazem-no sempre sentir-se presente, mesmo através do trabalho de iluminação que, por vezes, ilumina mais os espetadores que os atores. O público torna-se parte da história, fazendo com que esta não seja contada em vão. O público é o motivo de existir da própria peça.

A criatividade não se fica apenas na forma de interpretar e encarar este texto de Garrett. Entre o primeiro e o segundo ato, Diogo e Inês recorrem à projeção da cena onde Maria questiona Telmo sobre o retrato na parede, recorrendo ao filme homónimo, estreado em 1950, do realizador português António Lopes Ribeiro.

O retrato de D. João de Portugal, desaparecido em Alcácer-Quibir juntamente com D. Sebastião, um dos símbolos que prenuncia a desgraça das várias personagens deste drama. O retrato de D. João de Portugal que, indiretamente, acaba por substituir o retrato de D. Manuel de Sousa Coutinho, queimado com o incêndio no primeiro ato. Com as chamas se cumpriria o fatal destino.

A simplicidade cénica e da própria interpretação faz-nos ficar agarrados à ação, tentando descobrir quais as alterações que foram integradas ao texto original. Um trabalho jovem, criativo, acessível ao público.

O espetáculo, coprodução entre a among other associação e o teatro da garagem, realiza-se de quarta a sábado pelas 21:15 e aos domingos às 16:15.

*Artigo em colaboração com Inês Moreira Santos