A inspiração que recebemos dos grandes líderes vem, grande parte das vezes, do seu percurso heroico e conquistador. Isto remete-nos para um cânone dos contos de fadas: um príncipe corajoso, de coração puro e alma valente. Margaret Thatcher deu a volta ao texto – não é um príncipe, nem sequer tem origens nobres. É uma mulher, filha do merceeiro. Goste-se ou não, esta é uma história de vitória e persistência.

A dureza que associamos a Thatcher parece longínqua, num mundo que já não se lembra bem dela, e em que os valores conservadores que defendeu durante toda a sua vida política, se esbateram.

A luta para vencer num mundo político classicamente masculino, deixou marcas. Principalmente se tivermos em conta que foi no Partido Conservador. Perante o falecimento do marido, vemos alguém que não consegue encarar uma dura realidade – perdeu o marido, já não tem consigo a sua família, foi arredada do poder pelos seus pares. Uma vida de dedicação a ideais e à sua Pátria limitou bastante a vida familiar.

A senilidade e debilidade da velha Margaret contrastam com o vigor e coragem que sempre demonstrou na vida pública. Este é o retrato comovente de um ícone do século XX, e de uma das mais carismáticas e fortes líderes políticas mundiais.

A pressão e stress da vida política deixaram marcas profundas na vida de Margaret Thatcher

Meryl Streep domina totalmente A Dama de Ferro. Com a maestria a que sempre nos habituou, demonstra que não é por ser americana que tem menos dedicação ao papel da ex-primeira-ministra britânica: a voz, as frases, o olhar, o sorriso, o andar. Se esta interpretação não fosse brilhante, a excelente caracterização geraria apenas uma caricatura, porém o fortíssimo desempenho da diva leva-nos a confundir frequentemente Margaret e Meryl, numa osmose perfeita entre atriz e personagem.

Thatcher é, enquanto personagem, riquíssima, e independentemente da veracidade do argumento, que está a dividir opiniões no Reino Unido, é impressionante a versatilidade de Streep, encarnando tanto uma mulher verdadeiramente fatal, crua e incisiva, ainda na sua vida ativa, como uma idosa frágil, debilitada, levemente perdida. Uma sombra daquilo que foi, a tentar libertar-se dos fantasmas de uma vida dura e, acreditamos, traumatizante.

Este é o reflexo do passo decidido de uma mulher que foi demasiado corajosa para o seu tempo e cujo carácter implacável acabou por definir, demasiado bem, o seu destino. À sua volta, e passado tantos anos, já não há paciência para esperar que ela regresse ao mundo real, que ‘desligue’ o fantasma do marido, que deixe de ser, definitivamente, primeira-ministra.

Uma tocante história de vida, com o poder de deixar o espectador a lacrimejar do início ao fim. Um filme de interpretações, nas quais não se conta só com Meryl, mas também com o simpático Jim Broadbent, que nos faz perceber o porquê da dificuldade da esposa em deixar partir Denis, ou ainda Olivia Colman, a sofredora Carol, a filha responsável por encarar a difícil realidade do mundo virtual onde Margaret se enclausurou a si própria. Destaque ainda para Alexandra Roach, que encarna a protagonista enquanto jovem. Sonhadora, mas sempre decidida.

Alexandra Roach com uma boa interpretação e em destaque no papel da jovem Margaret

Independentemente do nosso posicionamento político, este filme tem a capacidade de nos deixar rendidos a Thatcher, até porque se a política antes era «sobre fazer algo», «agora, é sobre tentar ser alguém». É esta vontade de fazer algo, superior a qualquer ideologia, este sentido de responsabilidade e sacrifício que envolve toda a aura do filme, que nos leva a ficar magnetizados por esta figura tão controversa. Brutal nos atos e nas palavras, conquista-nos pela força, pela franqueza, pelo pragmatismo.

Desculpem se me esqueci dos pormenores técnicos, como a boa fotografia e cenografia, a pertinente utilização de imagens de arquivo e ainda o impecável trabalho com o guarda-roupa, mas este argumento, mais ou menos romanceado, foi feito à medida de Meryl Streep, que é, ela própria, todo o filme.

Não sei se Margaret Thatcher, caso ainda esteja em condições para o fazer, poderá assistir a esta produção. Sinto que, independentemente do que muitos acham, esta é uma homenagem e a merecida explicação histórica de toda a ação da ex-líder conservadora.

Hoje fragilizada, sofre de demência senil, todavia nunca poderá ser vista como uma mulher fraca ou uma derrotada, e nem o seria, por mais chávenas de chá que tivesse de lavar. Ser tanto, e com tanta intensidade, é esgotante, e, em 86 anos, esta é uma vida que parece ter durado séculos.

9/10

Ficha Técnica

Título Original: The Iron Lady
Realizador: Phyllida Lloyd
Argumentista: Abi Morgan
Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Susan Brown, Iain Glen, Alexandra Roach, Olivia Colman
Género: Drama Biográfico
Duração: 105 minutos