Com estreia absoluta no IndieLisboa, a 12 de Maio de 2011, e depois de passar por vários festivais internacionais, O Que Há de Novo no Amor? chega hoje aos cinemas e traz consigo muita expectativa. Muita promoção, jovens actores, histórias de amor que prometem trazer algo de diferente e seis realizadores que anunciam um filme original.

Todo o trabalho de marketing, com direito a uma antestreia no passado dia 4 de Fevereiro no Cinema São Jorge, outdoors, distribuição de balões do filme pelas ruas e diversas entrevistas, parece ter funcionado e fazer com que ninguém esqueça o nome do filme. Contudo, a falta de unidade enquanto longa-metragem deita tudo a perder. Ainda assim, podem apontar-se algumas boas interpretações, uma banda sonora interessante e algumas histórias que poderiam ter muito mais para dar.

O Que Há de Novo no Amor? pretende contar as histórias de seis pessoas, todas elas ligadas entre si pelo grupo de amigos que as vive. Os seis juntam-se todas as noites numa cave para os ensaios da sua banda. Contudo, esta parece começar a desmembrar-se aos poucos, devido aos problemas amorosos dos seus membros. A Rita (Joana Santos) deixou o Ricardo, e conhece o Rafael (Ângelo Rodrigues), um aparente ladrão de livros na livraria onde ela trabalha. Por sua vez,  o Eduardo (Miguel Raposo) achava que já não gostava da Maria (Diana Nicolau), mas depois da decisão que tomou torna-se difícil voltar atrás. O João (David Cabecinha) gosta da Inês (Inês Vaz), para quem está a compor uma canção, mas não tem coragem de deixar a namorada. O Marco (João Cajuda) luta pelo amor de outro rapaz, mas não se ilude. O Samuel (Nuno Casanovas) acredita no amor eterno, mas algo inesperado aconteceu. A Inês gosta de experimentar e agora anda a ver o que dá com o João.

Seis realizadores por detrás de um filme é algo pouco usual, mas, neste caso, Hugo Alves, Mónica Santana Baptista, Hugo Martins, Tiago Nunes, Patricia Raposo e Rui Santos quiseram arriscar e tentar trazer algo de diferente ao cinema português. Prometem descobertas no que toca a esse sentimento tão belo e tão trágico e, ao mesmo tempo, tão indecifrável. “O tempo do cinema é o único que dá a liberdade para descobrir o que há de novo no amor”, afirmam na sua nota de intenções. No entanto, algo não funcionou.

Os diálogos são, na sua grande maioria, muito básicos. Não há unidade na narrativa, o filme parece ser uma sequência de curtas-metragens que têm entre elas uma espécie de “intervalo” com imagens dos ensaios da banda. Cada realizador, uma história. Esta ideia resultaria se cada um pegasse no seu argumento e o transformasse numa curta-metragem, ou a desenvolvesse numa longa, no caso de haver material para tal. Neste caso, o que foi feito foi colocar uma sequência de seis curtas (ou cinco, já que duas delas se relacionam) e apresentá-las num filme de quase duas horas.

Não só as seis histórias são demais para encaixar nesse tempo, como acabam por não ser suficientemente desenvolvidas. Todas elas deixam a sensação de que vem aí mais… Com tanta pequena história dentro do todo, a unidade perde-se e o elo de ligação entre todas as personagens – a banda – é totalmente esquecida pelos realizadores. Está-se mesmo perante várias curtas, cuja qualidade de umas é consideravelmente superior, e não uma longa-metragem una.

A história de Rita e Rafael parece trazer algo divertido e diferente, deixando o público na expectativa, no entanto, termina de repente, ficando-se eternamente à espera de mais. Já Eduardo e Maria nem sequer deveriam ter sido inventados. São personagens que nada acrescentam a O Que Há de Novo no Amor?. As histórias de João e Inês são, por assim dizer, duas em uma, relatam toda a problemática em volta da complicada relação das duas personagens, um dos momentos positivos do filme. A história de Marco está relacionada com a homossexualidade e é, claramente, o ponto alto desta longa-metragem. Muito bem concretizada, com uma fantástica prestação de João Cajuda. Por fim, o caso de Samuel levanta uma temática muito interessante que, apesar de tudo, poderia ser abordada com mais êxito.

Nota-se bem que os actores trabalharam apenas com o realizador da sua história, e isso ajuda a compreender o porquê da falta de unidade de O Que há de novo no amor?. Apenas as histórias de João e Inês mostram que existiu certamente colaboração entre realizadores e ainda bem que assim foi. Há momentos substancialmente melhores que outros no decorrer de todo o filme. Destaco a história de Marco e todo o ambiente, completamente diferente do que estamos à espera, que se apresenta perante nós. Ali está construída toda uma outra dimensão e aquela personagem daria decididamente para muito mais do que os poucos minutos que nos apresentam.

Apesar do elenco contar com nomes de destaque no panorama actual, as personagens não estão à sua altura, pouco complexas, a maioria muito pouco reais. Joana Santos e Ângelo Rodrigues, talvez os mais conhecidos do elenco, têm uma participação demasiado curta. A melhor interpretação de O Que Há de Novo no Amor? é, sem dúvida, a de João Cajuda, que protagoniza as cenas mais intensas e incorpora a melhor personagem. Através de Marco, Cajuda faz-nos pensar e entrar num universo totalmente diferente. David Cabecinha e Inês Vaz têm também interpretações interessantes.

Os fãs de música portuguesa ficarão decerto satisfeitos com a banda sonora, da autoria dos peixe:avião, onde também se podem ouvir alguns temas d’ Os Golpes, d’ Os Velhos, de The Walkmen e de Samuel Úria, que tem mesmo uma pequena participação em O Que Há de Novo no Amor?. A fotografia, a cargo de Daniel Neves, tem alguns bons momentos.

O filme cumpre a função de “entreter”, mas aborrece, por ser demasiado longo para tão pouco conteúdo. Falta unidade em termos de realização, argumento e diálogos. Cada realizador parece ter feito única e exclusivamente a sua parte sem se preocupar em verificar se, no conjunto, o filme funcionava bem. O Que Há de Novo no Amor?, ao fim de contas, não responde à pergunta que coloca, propõe-se a trazer novidades mas não o faz. Vale principalmente pelos actores, banda sonora e duas ou três histórias.

5/10

Ficha Técnica:

Título original: O Que Há de Novo no Amor?

Realizado por:  Hugo Alves, Mónica Santana Baptista, Hugo Martins, Tiago Nunes, Patricia Raposo e Rui Santos

Escrito por: Hugo Alves, Mónica Santana Baptista, Hugo Martins, Tiago Nunes, Patricia Raposo, Rui Santos e Otávio Rosado.

Elenco: Joana Santos, João Cajuda, Nuno Casanovas, Miguel Raposo, David Cabecinha, Inês Vaz, Diana Nicolau, Joana Metrass

Género: Drama, Romance

Duração:  111 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.