O refrão “Paixão, paixão, não vais fugir de mim. Serás paixão até ao fim” da conhecida música dos Heróis do Mar poderia resumir o primeiro filme português de 2012, a par de O Que Há de Novo no Amor?, a estrear também esta semana.

Paixão de Margarida Gil traz-nos a história de João Lucas (Carloto Cotta) e Maria Salomé (Ana Brandão). Após se conhecerem num bar acabam por terminar a noite em casa desta. Quando acorda de manhã, João é confrontado com uma situação enlouquecedora: está preso no quarto, sem qualquer forma de fugir.

Aquilo que à partida poderia parecer uma brincadeira, acaba por se transformar num pesadelo. João Lucas tenta arranjar formas de se evadir mas acaba sempre por ver defraudadas as suas expetativas. Do outro lado do quarto, Maria Salomé, a mulher que o aprisiona, é quem acaba por ser a sua única ligação ao mundo exterior. Lê-lhe as capas dos jornais, manda-lhe a comida através de uma janela exterior, conversam sobre os mais variados assuntos.

Um tema é recorrente: o amor e a paixão. As personagens vão-se conhecendo, existindo contudo alguns passos para trás na relação. João pergunta o porquê de estar aprisionado, mas a mulher não lhe dá resposta alguma. Maria Salomé, portadora de um segredo marcante, aproveita todas as oportunidades em que João Lucas está a dormir para acompanhá-lo no seu leito, contudo numa destas vezes o seu prisioneiro acaba por conseguir fugir.

João sai da casa onde esteve aprisionado mas acaba por voltar a ela pouco tempo depois. Uma espécie de síndrome de Estocolmo liga as duas personagens, numa relação um tanto ou quanto estranha. O mundo para além daquela casa deixa de fazer sentido para o protagonista, que acaba por perceber que está apaixonado por Maria Salomé. A casa como que os suga para o seu interior, encerrando a relação que se criou. Até ao ponto final, até que a casa seja destruída, até que eles sejam destruídos com ela, João Lucas e Maria Salomé ficarão juntos.

Uma história que nos ensina que “é preciso aprender a amar” o estranho, tornando-o conhecido e parte de nós mesmos. O abismo ultrapassado entre o eu e o outro motivado pela restrição, pelo isolamento. Uma casa onde uma paixão cresce, onde se aprende a amar, apesar das circunstâncias fora do comum que a motivam.

Carloto Cotta e Ana Brandão trazem-nos interpretações que nos deixam confusos, tais como as próprias personagens. A estranheza das personagens acaba por se transformar numa dificuldade de avaliação da interpretação dos mesmos. Existem momentos em que nos sentimos agarrados à história mas outros em que simplesmente somos alheios à densidade que carregam estas personagens. Os diálogos por vezes são assimétricos: se alguns são de extrema beleza e densidade, outros são completamente, digamos, superficiais.

A aposta num ritmo lento do filme, que por vezes conduz a um desprendimento face à ação, é contrabalançada por uma diversidade e riqueza visual dos planos. Somos capazes de encontrar fotografias de grande beleza nalguns dos planos do filme. Uma variedade de opções num jogo de luzes e sombras é um dos pontos fortes deste filme, que vai acompanhando a própria história e dando conta do estado de espírito das personagens. Tudo parece ter sido colocado propositadamente para a construção da cena, sendo utilizada de uma forma que contribui para agarrar o espetador.

Paixão, de Margarida Gil, é daqueles filmes em que cada um terá de se confrontar diretamente com o ecrã do cinema para perceber se gostou ou não. É um filme que poderá ter conseguido atingir o seu possível objetivo: deixar-nos numa situação de estranheza, fazer-nos pensar, reavaliar padrões e formas de viver os sentimentos.

6,5/10

Ficha Técnica

Título original: A Paixão

Realizador: Margarida Gil

Argumentista: Margarida Gil

Elenco: Carloto Cotta, Ana Brandão, Sandra Faleiro

Género: Drama

Duração: 75 minutos