3 de fevereiro marca o último dia do festival Kino – Cinema de Expressão Alemã, que reuniu no Cinema S. Jorge, em Lisboa, filmes oriundos da Alemanha, Áustria, Luxemburgo e Suíça.

A sessão de encerramento pôs fim ao festival mas também ao Ciclo Áustria, o grande destaque da programação deste ano já que o cinema austríaco tem definido a sua posição no panorama cinematográfico mundial e inclusive na corrida a prémios e distinções na área da sétima arte.

As honras de encerramento couberam a Respirar, o drama de Karl Markovics lançado em 2011, antecedido pela curta-metragem alemã de animação L’Affranchie Free Slave de Pauline Flory.

L’Affranchie Free Slave – 6/10

A simplicidade pode ser bonita e a animação pode ficar a ganhar com este aspeto. A curta de Pauline Flory conta a história de uma marioneta que procura, através dos sonhos, libertar-se dos fios e da cruz que a prendem.

O preto e o branco dominantes na animação confrontam-se com um choque de cores que mentalmente nos chegam através da história e dos sonhos da pequena marioneta. O silêncio é apenas rasgado por sons que nos dão conta do movimento das personagens.

Simples e bonito, como no mundo dos sonhos.

Respirar (Atmen) – 7,5/10

Conhecemos Roman Koegler, interpretado por Thomas Schubert. Com 19 anos está à procura de um emprego que lhe permita justificar a redução de pena que está a cumprir desde os 14 anos numa prisão juvenil na Áustria.

Nada mais nos é dado a conhecer do protagonista na fase inicial da história. Ainda assim, vamos sentindo uma identificação para com o jovem. Naturalmente desenquadrado, solitário, um tanto ou quanto indiferente à realidade que o rodeia, não deixa de nos cativar com o seu percurso de vida (mesmo que desconheçamos ainda qual).

Koegler consegue arranjar um trabalho à experiência na Agência Funerária Viena. Um teste aos limites da própria personagem e do espetador que se confronta com cenas de uma realidade crua que é a da morte. Cenas extremamente realistas trazem-nos um retrato daquilo que acontece quando o nosso corpo deixa de funcionar na íntegra e deixam-nos a pensar que todos um dia teremos de ser protagonistas de uma situação semelhante.

Para o jovem que viveu em pequeno num orfanato e daí passou para a prisão, a liberdade parece uma miragem. Cada oportunidade a sós no mundo exterior é como a conquista de uma nova etapa na vida e da confiança daqueles que o rodeiam.

Koegler decide juntar as peças do seu passado e parte à procura da mãe que o abandonou. Acaba por ter uma deceção ainda maior daquela que esperava quando encontra uma mulher que não hesita em responder-lhe que “foi o dia mais feliz da minha vida” o dia em que entregou o filho aos serviços sociais, após ter tentado matá-lo, asfixiando-o com uma almofada devido ao seu choro que não a deixava dormir.

Aos poucos o mundo exterior começa a fazer sentido para Koegler. Planos de um futuro melhor começam a traçar-se para o rapaz que vai resolvendo alguns dramas interiores que carregou ao longo dos anos. O perdão a si próprio chega, a vida segue em frente.

Um filme de uma grande precisão, que nos mostra que os limites de nós mesmos se redefinem com o avançar da vida. Um braço de ferro entre a inevitabilidade da morte e a beleza da possibilidade de uma nova vida.

httpv://www.youtube.com/watch?v=rLPwjQKpdLk