Ninguém esperava que um filme francês mudo e a preto e branco pudesse fazer um sucesso astronómico num tempo em que o sonoro domina. Mas não só o sucesso se confirmou como os prémios não param de chegar e há dez nomeações para os Óscares da Academia. O fenómeno esse chama-se O Artista e já chegou aos cinemas portugueses.

A magia do cinema mudo parece ter regressado, nem que seja só desta vez, e pode experimentar-se uma época longínqua. O estar na sala de cinema a ver um filme a preto e branco e sem som, o barulho do projector, os sorrisos ou gargalhadas, tudo tão mais perto dos nossos ouvidos. E a música tão característica, tudo parece estar de volta, muitas décadas depois. Os anos 20 do cinema podem reviver-se agora, quase um século depois, no que parece ser uma homenagem. Hazanavicius quis que a actualidade lembrasse a História da Sétima Arte, e, apesar do argumento não ter a força que deveria, dotou O Artista de excelentes pormenores técnicos e de um protagonista à altura.

 

Tudo acontece em Hollywood, no ano de 1927. George Valentin é uma das maiores estrelas do cinema mudo. Quando conhece Peppy Miller, uma figurante jovem e ambiciosa, fica fascinado. No entanto, a chegada dos filmes sonoros marca o fim da carreira de George, e faz de Peppy a nova grande estrela da indústria cinematográfica.

Estamos perante algo que de novo não tem nada, mas é novidade nos dias que correm e, por esta mesma razão, é um dever ver-se esta longa-metragem numa sala de cinema. O Artista apresenta-se como um filme mudo, a preto e branco e foi filmado em 1.33:1, ou seja, temos o ecrã do cinema com o mesmo enquadramento dos filmes da época homenageada.

Michel Hazanavicius quis surpreender, contudo, não foi original no que toca ao argumento. A questão da transição do mudo para o sonoro, o drama do artista que não se adapta ao “novo” cinema e a espécie de romance que se gera entre os dois personagens, tudo isso já foi visto, e um bom exemplo é o musical Serenata à Chuva (Singin’in the Rain). Lá está a mudança mudo-sonoro, lá está a actriz que não se adapta e lá está o inevitável romance (mas claro que o clássico vai muito além disso). Em O Artista, o realizador aproveita bem principalmente a questão da transição do mudo para o sonoro, dotando o filme de alguma originalidade, apesar da história em si acabar por ser demasiado superficial. O próprio final não é inesperado, não deixando, apesar disso, de ser digno do filme, mas esperava-se mais.

 

Toda a componente técnica, dominada por uma excelente realização de Hazanavicius, faz com que O Artista seja, felizmente, muito mais do que o seu argumento nos dá. Os planos, a direcção de fotografia e a banda sonora colocam o espectador num ambiente muito diferente daquele a que o cinema actual o habituou, e a experiência é excelente. No início, por exemplo, vemos um filme dentro de outro, ao acompanhar, na (nossa) sala de cinema, o filme que passa numa sala de cinema no ano de 1927.

O elenco foi muito bem escolhido e torna-se num dos principais atributos do filme. Jean Dujardin tem uma interpretação extraordinária, e merece todos os prémios e nomeações que tem recebido. A sua personagem, George Valentin, é o orgulhoso galã dos filmes mudos, com um sorriso que se tornou característico, e o charme do actor passou para o lado de cá da tela. As suas semelhanças a Gene Kelly são bastantes, é o típico galã de Hollywood, e a sua fisionomia encaixa-se muito bem na personagem que representa.

Bérénice Bejo tem uma interpretação interessante na pele de Peppy Miller, ambiciosa e deslumbrada pela fama, mas com um coração maior do que aparenta. Ela surge como um bom exemplo das divas do cinema. Ainda outro grande “actor” deste filme é o pequeno cão que acompanha sempre o protagonista, que conquista o público desde o primeiro instante.

 

Apesar de tudo, eu prefiro considerar O Artista como um “falso” filme mudo, já que é isso que ele acaba por ser. Num mundo totalmente dominado pelo sonoro, parece que foi impossível fugir à tentação de utilizar o som também neste caso. Não que isso seja negativo, o som, da forma e nos poucos momentos em que é utilizado, dota o filme de uma certa singularidade (o momento do sonho é dos mais marcantes de todo O Artista), mas não deixa de haver uma certa desilusão ao ver que, afinal, o filme não é tão desafiante como se apresenta. Na realidade, as novidades são poucas ou nenhumas.

O Artista pretende ser uma homenagem ao cinema e parece estar a cumprir o objectivo, ou pelo menos a crítica assim o acha. O mundo está rendido ao filme que, tudo aponta, será o grande vencedor da próxima cerimónia dos Óscares. No meio da genialidade técnica, um argumento pouco original deita por terra aquilo que O Artista poderia ter sido: um verdadeiro marco na História do Cinema. Ainda assim, ninguém pode negar a beleza, no verdadeiro sentido da palavra, deste filme de Hazanavicius ou ficar indiferente à fabulosa interpretação de Dujardin. Um filme sobre o cinema, para ver no cinema.

7.5/10

Ficha Técnica

Título Original: The Artist

Realizador:  Michel Hazanavicius

Argumento:  Michel Hazanavicius

Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell

Género: Romance, Comédia, Drama

Duração: 100 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.