Estreando-se nos LP’s em 2010, com Turning On, os Cloud Nothings só chegariam a atingir uma maior exposição no ano passado, com o homónimo lançado em Janeiro de 2011, gravado solitariamente por Dylan Baldi e que mostrava, à semelhança do trabalho anterior, um Indie Rock muito enérgico, juvenil e cheio de influências do Punk. Agora, já como banda, os Cloud Nothings lançam o seu terceiro álbum, Attack On Memory, o alvo da review de hoje, e que está disponível desde 24 de Janeiro.

Gravados de forma caseira por Dylan Baldi, Turning On e Cloud Nothings podem ser situados num ponto intermédio entre o Indie Rock, o Punk e o Lo-Fi, com um toque de energia juvenil e reverb que suscitou comparações com os Wavves ou Best Coast. Porém, é certo que, apesar de interessantes, achei estas obras um bocado medianas e um pouco básicas, com uma falta de maturidade notória. Suspeito, contudo, que isso também deve ter passado pela cabeça de Baldi, que decidiu fazer algumas mudanças para este álbum; gravado em grupo com os restantes membros da banda, e com grandes diferenças ao nível da atitude, da estética e da sonoridade, Attack On Memory traz uns Cloud Nothings muito mais maduros e sólidos, sendo este um disco um sério candidato a melhor álbum de 2012.

Enquanto que nos primeiros dois discos a música dos Cloud Nothings era bastante jovial e animada, neste Attack On Memory a banda ganhou tons muito mais adultos e abrasivos, afastando-se do Indie Rock dos 00’s para territórios que lembram o Alternative Rock de final dos anos 80, início dos anos 90. Com um som mais duro, emocional e agressivo, fortemente influenciado por bandas como Fugazi, Slint ou Sunny Day Real Estate, Attack On Memory não é uma obra fácil, variando entre a tensão sufocante do Post-Hardcore, a contemplação violenta do Post-Rock e a libertação cáustica do Noise Rock.

Nas letras, Baldi mostra uma evolução notável enquanto songwriter. O rapaz que outrora falava sobre relações falhadas e amores despeitados de uma forma extremamente pueril e naïve mostra agora peças de soberba qualidade, que não só aprofundam de forma mais complexa as questões do amor como chegam até a abordar temas mais sérios como a falta de identificação com o passado, a nostalgia ou o sentimento de auto-exclusão da sociedade. Ao nível da voz, Dylan mostra, mais uma vez, maturidade; do tom agudo e adolescente passa para um registo mais adulto e grave, por vezes marcado por gritos emotivos e quebras de voz extremamente acutilantes.

A cargo do mui reputado Steve Albini, a produção é outra das características que “salta à vista” quando se escuta Attack On Memory, pelas abruptas mudanças que se operaram nesse departamento. Não fugindo do Lo-Fi, a abordagem aqui seguida é muito diferente da dos primeiros álbuns; em vez do reverb e do som “etéreo”, os instrumentos estão muito mais claros e límpidos, ao passo que a distorção está muito mais afiada, e a estética muito mais abrasiva. Em poucas palavras, o som dos Cloud Nothings ouve-se de forma mais nítida, mas está mais “sujo” e analógico.

Outra coisa bastante positiva neste Attack On Memory é a sensação de coesão e solidez que transparece quando ouço o álbum, algo que está ligado ao facto do disco ter sido gravado “ao vivo no estúdio”, sem truques. Tudo isto ajuda a que este terceiro LP seja, para mim, uma obra-prima frenética e envolvente.  Um disco quase imaculado e perfeito, “falha” apenas em ser demasiado curto, com os seus 33 minutos a deixarem-me desesperado por mais. Tirando isso, é um excelente álbum, do melhor que já ouvi em algum tempo.

Das 8 faixas que constituem este Attack On Memory é extremamente difícil escolher favoritas, devido à forma como me apaixonei por (quase) tudo neste disco. Ainda assim destaco a intensa No Future/No Past, com o seu crescendo hipnótico e o seu Post-Rock inspirado nos Slint, a enérgica Stay Useless, com o seu Alternative Rock viciante a ir buscar um pouco aos The Strokes e aos The Replacements e a penetrante No Sentiment, com uma descarga de emoções catárticas a lembrar o Post-Hardcore dos Fugazi ou dos Sunny Day Real Estate. Quanto a faixas mais fracas, a única que me agradou menos que as outras foi Cut You, a faixa final, que termina um álbum com um fade-out que me deixou de pé atrás. Tirando esse pequeno detalhe, todas as canções são nada menos do que formidáveis.

Resumindo, as mudanças que Dylan Baldi fez no grupo mostram grande maturidade e fizeram com que os Cloud Nothings atingissem um patamar de qualidade que poucas bandas conseguem alcançar. Assim, Attack On Memory apanhou-me desprevenido como se fosse um autêntico murro no estômago, devido à tensão alarmante e a sonoridade inquietante, muitíssimo melhor do que tudo o que o grupo fez até então. Sem um fio-condutor ou um tema rígido e monolítico, estas 8 canções têm, porém, uma estética em comum que serve de base a este LP, e que faz com que esta espectacular “reinvenção” do Alternative Rock dos anos 80/90 se mantenha fresca e surpreendente. Arrisco-me a dizer que dificilmente Attack On Memory não será o “meu” álbum do ano, dado o nível de exigência que define.

Nota Final: 9,4/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945