Dias de Amor e Vinho é a proposta que nos traz o Teatro da Politécnica até 25 de fevereiro. Um original de J.P. Miller de 1958 adaptado ao teatro por Owen McCafferty em 2005. Jorge Silva Melo encena esta produção dos Artistas Unidos, contando com Maria João Falcão e Rúben Gomes.

1959. Dois estranhos no aeroporto de Belfast. O avião atrasado por que ambos esperam há de levá-los ao encontro dos seus sonhos. Tão desconhecidos, mas com tantos objetivos de futuro em comum. Londres, a grande cidade repleta de oportunidades. A espera silenciosa é dolorosa, mais vale tentar meter conversa. O tempo passa mais depressa.

Donald, Mona. Dois desconhecidos se tornam conhecidos. Sufocados pela pequenez de Belfast, encontram em Londres a oportunidade para ir mais além. Ele com um plano bem traçado, ela à mercê do acaso. Antes mesmo da partida, há margem para se fazer algo que nunca se teve oportunidade ou vontade. Um brinde aos sonhos, um brinde ao sucesso, um brinde ao futuro. Um brinde a uma paixão que cresce.

Uma vida a dois floresce, num registo de quase perfeição. A primeira casa, o primeiro filho, o primeiro sucesso nos negócios. A vida como uma corrida de cavalos em que se apostou no cavalo mais corajoso e rápido. A vida perfeita na cidade perfeita: a Londres das luzes, das conquistas, das vitórias.

Até que a repetição dos dias, das conversas e das rotinas se torna uma constante, conduzida pela corrente forte do álcool. Uma vida começa a ruir, dando lugar à dor. Os brindes, apesar do humor que os rodeia, tornam-se amargos, tristes, dececionantes. Destrói-se uma vida, numa espiral que conduz à escuridão.

Chega uma altura de admitir o problema e tentar recuperar. É altura de procurar ultrapassar a situação, deixando o problema no foro íntimo. Uma recuperação a dois para evitar que a vida que se esperou se extinga. Uma fachada que cai à primeira oportunidade.

Uma resolução a dois não chega. É preciso procurar ajuda fora. Um passo difícil que Donald decide tomar mas que Mona recusa. O álcool torna-se o refúgio da mulher, conduzindo-a a caminhos de pura degradação.

Ser corajoso, dar o passo em frente. Uma etapa que apenas Donald consegue atingir. “Somos alcoólicos” – é difícil assumir, mais difícil ultrapassar. Mona recusa carregar um rótulo que a associa a gente fraca e sem autoestima, não conseguindo ver que o retrato que ela traça das pessoas com dependência é o retrato dela própria. Revelações surpreendentes do caráter difícil daquela que mais amámos. Vidas a ruir, planos que se riscam.

É necessário voltar. Voltar a Belfast. Voltar atrás nas decisões. Quando tudo o que se planeou falha, nada como o refúgio na terra de onde somos. Um esforço não basta perante a falha latente. Um esforço adicional para quem a corrida é mais difícil.

Dá-se a separação. Separa-se uma família, um grande amor. É necessário guardar os sonhos na mala. Donald regressa, Mona tentará uma nova vida na cidade que afogou os seus sonhos em vários copos de bebida.

Num cenário marcado pela simplicidade, são as interpretações de peso que nos agarram. Terrivelmente bela é a forma como podemos definir esta história. Uma reflexão sobre o impacto que um vício pode ter nas relações humanas e no destruir de sonhos tão ansiados.