“Long ago when man was king, his heart was clean now he’s stained class

Time has slashed each untouched thing, so now he’s just a stained class king…”

Um dos propósitos do Cena Extrema é ir ao baú dos álbuns seminais do Metal e dá-los a conhecer a um público mais generalizado, mas quando a banda a falar são os Judas Priest a coisa torna-se complicada. Isto porque a banda em questão não só inovou o seu género, como também o ajudou a definir. Uma banda que permanece no activo há 43 anos (embora com alguns acidentes de percalço e mudanças de formação) e cuja discografia contém, incontestavelmente, alguns dos álbuns mais importantes e inconfundíveis do espectro do Heavy Metal.

Sim, a escolha é difícil, mas a minha preferência acabou por ser o álbum Stained Class. Sendo verdade que estou (injustamente) a deixar de fora álbuns como Painkiller, Screaming for Vengeance ou Sad Wings of Destiny, também é verdade que este álbum, gravado em 1978, é, a par de álbuns de bandas como Black Sabbath, Deep Purple e Riot, um verdadeiro precursor daquilo a que hoje em dia se pode chamar de Heavy Metal. Sendo este o seu quarto LP, Stained Class é um dos álbuns compõem a fase mais clássica da banda, o seu período de ouro. Apesar da qualidade dos álbuns anteriores, em especial Sad Wings of DestinyStained Class destaca-se pela abordagem rápida, polida e inspirada que faz ao Heavy Metal, embora ainda perdure nele uma certa influência Rock.

Stained Class define-se sobretudo pela confiança e pela categoria das suas composições, sendo uma continuação lógica dos seus antecessores. A diferença é que tudo o que já tinham feito bem anteriormente, aqui fizeram-no ainda melhor.

Apesar da capa dar a entender uma sonoridade algo psicadélica, o que temos aqui são grandes temas de Metal puro e duro, sem qualquer espécie de aditivos. Uma característica que este álbum nos apresenta após repetidas audições é o quão coeso e sólido é. Desde o ritmo mais groovy de White Heat, Red Hot e de Better by You, Better Than Me (uma versão dos Spooky Tooth) até à marcha imponente de Savage ou à velocidade de Exciter, o álbum apresenta uma consistência impressionante, tanto a nível composicional como lírico.

Outra característica a ter em conta é que, apesar de já ter mais de 30 anos, este álbum tem os seus momentos de peso. Não, não é o peso que se hoje em dia se espera numa música de Immolation ou de Meshuggah, mas a parte final de White Heat, Red Hot, o potente refrão de Beyond the Realms of Death ou a intensidade de Exciter são exemplos que convidam àquela actividade tão metaleira que é o Headbanging. A nível lírico, o álbum é bastante sério e focado, levantando questões interessantes como a falência e corrupção do Homem em Stained Class, a fama adquirida após a morte de Heroes End (que se refere mais especificamente a Janis Joplin, Jimi Hendrix e James Dean) ou a depressão e consequente morte em Beyond the Realms of Death.

Falando de performances, toda a banda tem momentos de destaque, à excepção do baixista Ian Hill, que apenas competentemente segue as guitarras. Felizmente temos o privilégio de ouvir Les Binks na bateria, que apenas tocaria neste álbum e no álbum seguinte (Killing Machine / Hell Bent for Leather). E eu digo privilégio porque Les Binks foi provavelmente, a par de Scott Travis, um dos melhores bateristas a passar pela banda. A sua capacidade inventiva, os fills de bateria aqui e ali e a solidez com que desempenha o seu papel (oiçam logo o início de Exciter) criam uma secção rítmica perfeita para os riffs de Glenn Tipton e K.K. Downing.

E que riffs! Este álbum é uma autêntica bíblia de riffs para o iniciado nestas andanças do Heavy Metal. Digamos que um “Heavy Metal para Totós” com apenas os riffs deste álbum não seria uma ideia completamente descabida. E não se pode falar de Judas Priest sem falar dos solos. O trabalho de guitarra aqui apresentado é estupendo. Tanto os solos duais que celebrizaram esta dupla como os pormenores que se encontram ao longo do álbum revelam mestria e bom gosto, como no início de Better by You, Better Than Me ou os solos fantásticos de Beyond the Realms of Death. A dupla de guitarristas soa confiante e determinada neste álbum, com riffs simples mas memoráveis que viriam a ser extremamente importantes e influentes para as bandas de Thrash Metal como Slayer , Metallica ou Exciter.

Falta apenas falar em Rob Halford, e o que dizer? Ele é considerado o God of Metal por alguma razão. Neste álbum Halford começou a demonstrar mais o seu registo em falsetto (talvez um pouco de mais, quem não gostar de vozes agudas dificilmente aguentará ouvir o álbum até ao fim), tendo momentos impressionantes como os gritos a iniciar Savage ou o fim de Beyond the Realms of Death, mas demonstrando também saber dominar registos mais graves e conjugá-los com os agudos, como na dicotomia apresentada em Heroes End.

Apesar de já ter referido que o álbum é muito bom no seu todo, há destaques. Exciter, pelo seu ritmo furioso e intenso, refrão memorável e solos gloriosos e triunfais (em especial o segundo solo), Beyond the Realms of Death, provavelmente uma das melhores músicas que os Judas Priest já escreveram (senão a melhor), pela performance emotiva de Rob Halford e pelo grande trabalho de guitarra (incluindo as guitarras acústicas nos versos) e outras duas escolhas de critério um pouco mais pessoal, Better by You, Better Than Me pelo seu andamento quase funky com finesse e Heroes End simplesmente pelo seu grande riff e final em grande com uma cacofonia de solos duais.

Este álbum seria o penúltimo da época setentista dos Judas Priest e nos anos 80 algumas revoluções estilísticas dar-se-iam na banda, passando a ter uma abordagem mais comercial e simples à música, reflexo do que seria o Heavy Metal nos anos 80, com a explosão de popularidade deste género musical. Os Judas Priest viriam a lançar mais grandes álbuns, mas poucos se aproximaram da genialidade e influência deste Stained Class.

“Withdrawn he’d sit there, stare blank into space
No sign of life, would flicker on his face
Until one day he smiled, it seemed as though with pride
The wind kissed him, Goodbye – and then he died”