Tecidos vermelhos cobrem o espaço onde Herodíades tecerá o seu pranto. Mulher de paixões, mulher de desilusões, mulher de tantas histórias e detalhes. Elmano Sancho é quem recria, a partir do texto do italiano Giovanni Testori, o que terá sido o interior de uma mulher que marcou a história com o seu amor desmedido e com consequências mortais.

Metamorfose perfeita. Diante dos nossos olhos está um homem, diante do nosso coração está uma mulher. Herodíades, sem medo de se auto-denominar “puta”, viaja nas suas memórias sexuais, pelos seus desejos mais ousados, pelos momentos nunca concretizados.

A nudez do seu espírito incomoda mas rapidamente se torna normal. Uma mulher de força, sem medos de usar a linguagem pura e dura, os gestos mais desconfortáveis. Do seu corpo emana tensão sexual permanente, constante. Da sua boca sai o mais orgulhosamente sujo. Linguagem sem medos, sem receios, sem tabus: blasfémias, palavrões, tensões, situações. Tudo em verso, tornado mais belo.

À rainha-puta a quem nunca faltou um minuto de prazer, faltou apenas uma coisa: o amor correspondido. João, agora um vestígio daquilo que poderia ter sido. Cega, surda, muda por amor mas ao mesmo tempo a ver demais, a ouvir demais, a falar demais. João Baptista o seu nome.

Ardor sexual misturado naquilo que nos trouxe a história e a doutrina católica. Sem pudores nem medos. Ser feminino marcado pelo sofrimento da última peça para o jogo estar completo. João. “Ai tão belo que eras, como te amei deveras”, confessa aquela a quem o amor não foi correspondido. Jogos imorais, consequências fatais.

Um pedido de Salomé, tão pouco púdica como a própria mãe Herodíades, a Herodes Antipas, após lhe ter oferecido uma dança no seu aniversário. O monarca havia prometido à princesa ansiosa por trono qualquer coisa. A vontade chegou, influenciada pela mulher que a dera à luz. “Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Baptista”. O rei não podia fugir à promessa. A vontade de ambas se fez realidade.

Herodíades fala agora para a cabeça daquele que mais amou na vida. Cabeça que fora parte de um corpo que ansiava. Um corpo que podia ter penetrado o seu numa fusão que acalmaria os seus delírios de mulher que ansiava mais do que sexo. Sexo com amor. Amor que nunca chegou a conhecer.

Desejos recalcados pelo tempo e pelas situações. Momentos de puro prazer apenas vivenciados mentalmente. Fisicamente talvez, através da auto-satisfação. Na sua frente fala sem receios para aquele que um dia a recusou. Aquele que recusou ser dela, possuir o corpo dela, vivenciar o seu amor. A cabeça está à sua frente, Herodíades fala para ela. Tão perto mas ao mesmo tempo tão longe de atingir a sua vontade. A sua própria ganância destruiu as reduzidas possibilidades de alcançar aquela que para ela seria a felicidade extrema.

Um trabalho com um toque de genialidade é o que nos traz Herodíades, a rainha incorporada por Elmano Sancho dos Artistas Unidos, que esteve durante o mês de janeiro no Teatro da Politécnica, em Lisboa. A peça encenada por Jorge Silva Melo é uma abordagem ousada que conjuga o sexo e a religião, temas que à partida seriam inconciliáveis, de uma forma soberba. Trabalhos como este fazem falta ao panorama teatral português. Uma vénia perante a rainha.