No terceiro dia (28 de janeiro) do festival Kino – Cinema de Expressão Alemã, que reúne filmes provenientes da Alemanha, Áustria, Luxemburgo e Suíça, a enchente de pessoas que acorreu ao Cinema S. Jorge voltou a ser uma constante.

Pelas 21h00, já estavam esgotados os ingressos para aquele que foi um dos filmes mais esperados do festival, Quem, se não nós, que teria início 30 minutos depois. Antes do filme dramático de Andres Veiel, coube à curta A Camisa, de Jonas Rothländer, abrir a sessão.

A Camisa (Das Hemd) – 3/10
Um casamento, um pai e um filho, uma camisola interior. A curta de 6 minutos de Jonas Rothländer foca-se num filho envergonhado que, durante uma cerimónia de casamento, pede ao pai que se dirija à casa de banho para tirar uma camisola interior que é visível através da camisa deste.

Se esta parece uma situação absurda, a curta-metragem acaba também por sê-lo. Não traz nada de novo, não há uma história cativante, não agarra, não oferece riqueza visual. Apenas traz uma tentativa falhada de fazer humor.

Quem, se não nós (Wer wenn nicht wir) – 8,5/10
Uma muito agradável surpresa é o que nos traz Quem, se não nós, de Andres Veiel. Uma narrativa cativante e tocante, recheada de pontos altos, que recria não só a história de Bernward Vesper e de Gudrun Esslin, mas também de uma sociedade e de uma época.

Alemanha do pós-segunda guerra mundial. Um país que luta para se reconstruir e para evitar que o fascismo volte a tomar as rédeas da nação. Uma luta pelos ideais que se acreditam, pelos sonhos do futuro. Uma luta muitas vezes desmedida, extrema.

Bernward Vesper (August Diehl), filho de um dos poetas radicais com quem os nazis simpatizavam, e estudante de literatura em Tübingen, tem o sonho de criar uma editora que permita divulgar textos e obras com ideologia de esquerda.

Para tornar real este seu projecto, convida Gudrun Esslin (Lena Lauzemis), também ela estudante na mesma instituição por ter sido escolhida pelo pai de entre os irmãos como aquela a quem a frequência do ensino superior poderia mudar a vida.

Os projectos da editora misturam-se com os projectos da própria vida, com os sonhos e com as lutas ambicionadas pelo desejo de liberdade. Bernward e Gudrun tornam-se um casal, vivendo uma relação de extremos, marcada por topos de felicidade mas também por momentos de dor profunda. Mas, apesar de tudo, uma relação que se mantém porque “ao escrevermos sobre o amor aprendemos a amar”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=T-3N7ydKOz4

A mudança do casal para Berlim Ocidental em 1964 transforma-se no motivo do seu colapso. Bernward e Gudrun juntam-se a intelectuais de extrema-esquerda de forma a conseguirem levar os seus ideais mais longe. Conhecem Andreas Baader (Alexander Fehling), um extremista, que acaba por destruir a relação de ambos no momento em que leva Gudrun a abandonar o marido e o filho e a duvidar da força que os livros poderiam ter na revolução. É preciso ação, não letras para se atingir a mudança. Aí começam os ataques terroristas da Rote Armee Fraktion.

Entram em decadência alguns dos sonhos que motivaram uma vida, mas também das próprias personagens. Se Gudrun integra esta fação radical, Bernward deixa-se levar pelo consumo de drogas. Vidas que se deterioram, que fogem à normalidade, que se acabam.

As interpretações de August Diehl e Lena Lauzemis são de uma precisão rara. Nem por um único momento duvidamos daquilo que carregam no seu interior, dos seus ideais. As suas ações parecem sempre justificadas, enquadradas, necessárias. Um retrato bastante aproximado do que terá sido o percurso deste casal na vida real.

Outro dos aspetos que valorizam o filme são a sua banda sonora e a utilização de imagens de época intercaladas com o desenvolvimento da ação dos protagonistas, configurando um enquadramento aos próprios acontecimentos que Bernward e Gudrun vivem.

Será uma pena que o filme não chegue às salas de cinema nacionais. A película é um bom retrato não só das personagens como da época, mas também um excelente instrumento de reflexão sobre até onde nos poderão levar os nossos ideais.