Desde 22 de janeiro, todos os domingos até meados de março, o Espalha-Factos vai recordar um ator ou uma atriz, que tenha marcado a sua época, mas que caiu em esquecimento ou não foi suficientemente reconhecido. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Se se diz fã de westerns e nunca ouviu o nome de John Wayne, bem… é caso para reconsiderar esse estatuto que auto-proclamou, pois Wayne não foi um mero ator de segunda categoria, Wayne foi e será sempre o cowboy do grande ecrã.

A origem da lenda

Nascido Marion Robert Morrison, em maio de 1907, este ícone do cinema americano ficou conhecido pelo nome artístico de John Wayne. Proveniente de Winterset, Iowa, cedo se mudou para Los Angeles, onde, durante o período de estudante universitário, se tornou jogador de futebol americano. Acabou por se estrear no cinema em 1926, vestindo precisamente a pele de desportista. A partir desse momento trabalhou em parceria com a Fox Film Corporation – hoje 20th Century Fox – interpretando apenas pequenas personagens. É no ano de 1939, após participar em 78 filmes de série B, que Wayne dá o salto para o estrelato, ao colaborar com o cineasta John Ford em Cavalgada Heróica, um clássico instantâneo de alto orçamento que logo fez de si uma celebridade. Foi esta produção que moldou tudo aquilo que daqui para frente viria a ser feito na área dos westerns norte-americanos.

A dupla nunca mais parou desde então. Com Wayne na grande tela e Ford na cadeira de realizador, seguiram-se intemporais sucessos do faroeste como Rio Grande (1950), O Homem Tranquilo (1952) – vencedor de dois Óscares –, A Desaparecida (1956) e O Homem Que Matou Liberty Valance (1962), num total de mais de duas dezenas de produções conjuntas. Em 1969, ainda que sob a direção de Henry Hathaway, Wayne conseguiria arrecadar o único Óscar da sua carreira, de Melhor Ator Principal, pelo seu desempenho em A Velha Raposa – uma história recentemente recontada pelos também óscarizados irmãos Coen em True Grit: Indomável.

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Polémica e declínio

A controvérsia associada ao ator surgiu, primeiramente, em 1968, ano em que protagonizou e co-realizou Os Boinas Verdes, uma longa-metragem que retratava e se mostrava a favor da Guerra do Vietname, o que originou vários protestos que visavam proibir a exibição do filme. Foi nesse mesmo ano, convidado pelo Partido Republicano, que Wayne recusou a candidatura à Presidência da República por acreditar que um ator de cinema já mais pudesse ocupar um cargo de tal envergadura.

Pouco demorou para que a polémica estalasse novamente, quando, no ano de 1971, em entrevista à Playboy, o cowboy do grande ecrã reforça o seu apoio à Guerra do Vietname, proferindo também comentários controversos acerca da sociedade e das relações raciais nos Estados Unidos, falando nomeadamente da carência de experiência na liderança de negros e das desigualdades do passado.

Seguiram-se várias produções, passando pelos habituais westerns mas também por policiais, até que, por ironia do destino, Wayne protagoniza o último filme da sua carreira, em 1971, intitulado O Atirador, no papel de um pistoleiro às portas da morte devido a um cancro. O ator faleceria, três anos depois, precisamente com cancro. A doença já havido sido diagnosticada em 1964, resultando na remoção do pulmão esquerdo, bem como de quatro costelas. Wayne serviu-se da situação para apelar a que todos recorressem a exames de prevenção, aquando do anúncio público do seu estado clínico. Conhecido por ser assíduo fumador desde bastante novo, o ator volta ao consumo de tabaco após ter conhecimento, cinco anos depois, de que estava livre de perigo cancerígeno, embora a sua capacidade pulmonar tenha sido substancialmente reduzida.

John Wayne tornou-se, desde então, ativo na luta contra o cancro, tendo, inclusivamente, participado em estudos para o desenvolvimento de uma vacina curativa. Uma luta de que nada lhe valeu, pois o cancro reaparece, desta vez afetando-lhe o estômago, mais tarde retirado. O ator morre, aos 72 anos, no dia 11 de junho de 1979, valendo ao cinema uma carreira recheada de êxitos e de mais de uma centena e meia de papéis, entre séries de televisão e longas-metragens, calçando, maioritariamente, botas texanas.

John Wayne foi, é e será o eterno cowboy de Hollywood, venha quem vier. E é bom que não nos esqueçamos disso.