Os investigadores Pedro Sepúlveda e Jorge Uribe encontraram na mítica arca de Fernando Pessoa 43 textos inéditos sobre a principal temática de Mensagem. Sebastianismo e Quinto Império é o título do livro lançado hoje, numa edição da Ática, que compila os mesmos com outros 58 escritos já conhecidos sobre o mesmo tema.

Este volume, segundo os investigadores, não se encontrava disposto em qualquer tipo de organização específica. Assim, configura «uma compilação temática dos fólios do autor», pensamentos livres escritos em diversos géneros e contemplando diferentes abordagens, por vezes provocatórios, outras sociológicos ou herméticos.

«Acho que um dos principais interesses de Pessoa pela figura de D. Sebastião tem que ver com uma maneira de fazer frente a Camões: D. Sebastião é uma personagem de Os Lusíadas, de Camões, todo o poema épico é dedicado a D. Sebastião, mas o D. Sebastião que está por vir depois de Os Lusíadas é uma oportunidade para Pessoa se defrontar com aquele que era o seu precursor literário mais importante. [Em D. Sebastião], Pessoa encontra uma figura para falar de Portugal de uma maneira que, ao mesmo tempo, o aproxime a uma tradição popular, que é o que lhe interessa, mas também faça um certo afastamento de outros autores”, afirma o pessoano Uribe à Lusa.

Nesta perspetiva, o autor utiliza a figura d’O Desejado de modo a «entrar na História de Portugal onde Camões a deixou». Toda a intenção da obra lançada esta quinta-feira é, portanto, reunir a prosa pessoana que toque a dimensão mítica da nacionalidade portuguesa, expressa nos mitos do regresso de D. Sebastião e da materialização do Quinto Império.

De facto, os inéditos escritos encontram-se plenamente em sintonia com a obra do poeta. «Não é que exista um inédito que venha mostrar-nos uma coisa que ninguém pudesse imaginar que Pessoa tivesse escrito», acrescenta o colombiano Uribe.

O livro retrata uma matéria sublimemente abordada pelo poeta, cuja intemporalidade é inquestionável. Em tempos de crise política, económica e social agravada, a crença no regresso daquele que viria salvar a Nação e a esperança na edificação de um Quinto Império são transpostas para a sociedade atual, que espera e sonha por uma salvação urgente, que certamente não é revista na figura concreta de D. Sebastião ou num Império como a Índia que outrora construímos.