Um vozeirão provocador (que discursa e geme mais do que canta) aliado a arranjos de guitarra bem pensados que lhe dão espaço para se libertar. Mas mais importante e o que marca a diferença: letras de nível superior, que valem por si só em poemas mas são ainda mais sagazes quando musicadas. É esta troika que explica o sucesso imediato do osso da dupla Ana Deus (ex-Três Tristes Tigres) e Alexandre Soares (fundador do GNR). Rotular o projeto de minimalista é redutor, quando há aqui tanta carne para roer.

O álbum conquista à primeira. A imagem que fica é a de uma mulher tão boémia e despudorada como corajosa, que atira sem rodeios ora o que a enraivece ora o que a arrepia. Ora o que deseja. E às vezes tudo ao mesmo tempo.

Havia a curiosidade de perceber como é que as músicas funcionavam ao vivo; se o à-vontade se mantinha olhos no olhos com quem ouve  e se à voz de Ana Deus corresponderia uma proporcional expressividade nos gestos. Confirma-se. A apresentação do Osso Vaidoso num café-concerto no Teatro Viriato, em Viseu,  foi muito satisfatória: os temas foram fiéis aos gravados em álbum (chama-se Animal),  sobressaindo, ainda assim, a complexidade dos acordes de Alexandre Soares e os gritos e suspiros, dignos de fazer inveja. Um vozeirão, lá está. Quem se lembra dos saudosos Três Tristes Tigres não deixa mentir. O único reparo que se pode fazer assenta num detalhe da Coca-cola song: os “baby….” foram demasiado reservados e perderam sensualidade. Digno de revelo (mas não surpreendente) foi o público presente, na sua maioria na casa dos 40 anos. Para além de algum experimentalismo na ideia da dupla, há principalmente muita maturidade, comprovada.

Vamos às letras, umas mais profundas, outras que parecem triviais mas estão cheias de brilho. A uma ou outra chega a ser impossível apanhar-lhe sequer parte do sentido, mas são na generalidade composições que se infiltram e nos deixam a pensar durante muito tempo. Com um constante toque humorístico, para tornar a coisa mais leve.

A utópica Poligamia, com pretensões mundo eterno onde «virá brinde em qualquer produto» e se promete «dar um namorado de cada cor» à filha, cujo casamento profano será celebrado «à bruta pelo chão», é um bom cartão de visita. As palavras pertencem ao escritor Valter Hugo Mãe, cada vez mais aclamado pelo público nacional (em grande parte graças aos seus acessíveis micro-contos e poemas modernos).

httpv://www.youtube.com/watch?v=z_ikm7WrbJk

As restantes odes à reflexão partem de poemas de Alberto Pimenta, Regina Guimarães (com créditos firmados na música nacional – é letrista dos Clã) e um de Charles Cros, mas também de conversas com pessoas «zangadas com a leitura», no âmbito dos longínquos encontros de Leitura Furiosa, entre escritores e jovens marginalizados da cidade do Porto.

De temas corriqueiros que só com uma grande construção estética têm lugar naquilo que se pode chamar arte, até dissertações mais ácidas como o excerto “roubei e quero curtir / roubei para engatar”, há ainda desplante para revelar o “vício animal de te comer no quintal”.

Porque, de forma original, se apresenta o subconsciente de muitas mentes deste país, tocam a rebate os sinos por onde passa o Osso Vaidoso. Refrescante é um adjetivo adequado para o classificar. E o atrevimento conquista.