“Nunca podemos baixar a guarda!”, afirma J. Edgar Hoover, uma das figuras de maior poder nos EUA. Diretor do FBI durante 48 anos, passou por oito Presidentes, entre eles Roosevelt Kennedy, culminando com Nixon. Organizou a maior base de dados de criminalidade que o mundo já conheceu, mantendo em arquivos confidenciais as informações mais secretas, que serviam para manipular quem quisesse parar a força do FBI. Determinado e incontestável, J. Edgar colocava o seu trabalho acima da vida pessoal e acreditava que a a força apartidária do FBI era a única arma capaz de garantir a segurança do seu país contra radicalismos, gangsters e raptores.

Este filme psicológico sem efeitos especiais, tipicamente à moda de Clint Eastwood, aborda o lado profissional, mais aclamado, e o lado sentimental do chefe do Federal Bureau of Investigation. Apresenta a perspectiva de J.Edgar sobre a sua carreira no FBI, através da narração na primeira pessoa, que acompanha os contínuos flashbacks durante todo o filme de cariz biográfico.  A luta contra a criminalidade, que J. Edgar sempre tentou demonstrar como a sua maior prioridade, pode ser confundida pela constante obsessão pelo poder e reconhecimento do seu heroísmo. Não há uma concreta definição do caráter da personagem, apenas as opiniões do próprio J. Edgar, que engrandece os seus feitos, e do seu braço direito, o agente Tolson, que desmente muitas das suas façanhas.

A relação íntima de J. Edgar com o belo agente Tolson e a sua faceta insegura são magnificamente exploradas neste filme. A rigidez e pujança no seu trabalho contrastam com a cobardia demonstrada na vida pessoal. Para não denegrir a sua imagem viril, ele não assume qualquer proximidade física com o companheiro que tanto ama e repudia as suas tendências homossexuais, muito condenadas pela mãe, responsável pelo seu sucesso. Apesar da boa aposta neste tema, o filme começa a perder gradualmente a sua magnitude inicial quando se centra em demasia na interação entre estes dois personagens.

O filme peca ainda pela exploração exacerbada da velhice de Edgar. A degradação do protagonista e o acidente vascular de Tolson pouco ou nada acrescentaram ao “sumo” da história. A interpretação de Leonardo Dicaprio também deixou muito a desejar. A tentativa de incarnar o velho J. Edgar não foi muito bem sucedida. A voz forçada e a inexpressividade facial não contribuíram para a empatia com a personagem. A caracterização dos atores para representarem as personagens envelhecidas não surtiu grande efeito. O espetador não consegue abstrair-se do facto de serem os mesmos atores a interpretar as personagens mais velhas. Nos vários close-ups, durante o filme, podem avistar-se certas falhas na caracterização, que não ajudam o público a entrar na história e a acreditar nos sentimentos transmitidos pelas personagens.

Apesar de todos os pormenores técnicos menos desejáveis, o filme tem uma boa história, principalmente quando se debruça sobre o trabalho e as ideias avançadas de J. Edgar no vigor da sua juventude. Toda a perícia deste jovem diretor no combate ao crime, faz dele um herói, muitas vezes incompreendido pelos chefes, que não apostam no seu bom senso. Não foi o melhor filme de Clint Eastwood, mas o esforço valeu a pena para perpetuar, mais uma vez, o nome de J. Edgar na História.

6/10

Ficha Técnica

Título original: J.Edgar

Realizador: Clint Eastwood

Argumentista: Dustin Lance Black

Elenco: Leonardo Dicaprio, Naomi Watts, Judi Dench e Armie Hammer

Género: Biografia, Drama

Duração: 137 minutos