No paraíso também existe morte. A tristeza e o horror da fugacidade da vida penetram até nos mais recônditos lugares e a sua ação é tão ou mais implacável do que nos mais ardentes infernos. Nos paraísos da terra dos Homens, o mesmo se aplica. As praias, o sol e as ondas devorantes do Hawaii, fazem deste pequeno achado geográfico um paraíso. Mas ele também não foge à regra. É isso que nos conta Clooney, mal se abrem as cortinas desta viagem cinematográfica de Alexander Payne, realizador de As Confissões de Shmidt e Sideways, que percorre o mundo das emoções, tendo o Hawaii como cenário.

Em Os Descendentes é-nos narrada a história de Matt King, interpretado por George Clooney, um advogado que começa a duvidar desse mesmo paraíso, ao ser confrontado com duas grandes preocupações. Em primeiro lugar, herdeiro de uma das últimas reservas naturais do Hawaii, ainda por explorar comercialmente, Matt vê-se pressionado pelos seus familiares a vender esse pedaço de terra paradisíaca. Paralelamente, agravando as suas inquietações, recebe a trágica notícia de que a sua mulher não acordará mais do coma que lhe foi induzido, após um acidente no mar. Entre saber cuidar da sua herança e aceitar a morte da sua mulher, Matt mergulha numa viagem emocional que o vai transformar para sempre.

George Clooney é, neste filme, uma figura central. Nele revemos como o efeito do star system continua a ser uma tradição americana, obviamente em moldes bem mais liberais e abertamente criativos, mas fazendo com que o filme seja construído à medida do ator. Em traços largos, digamos que Os Descendentes é um filme aberto e apelativo ao trabalho de Clooney, que, ao assumir o papel de um homem inseguro, assustado e apavorado com as surpresas da vida, mas mesmo assim persistente e lutador, consegue construir uma personagem dinâmica, ao nível emocional, que, ação após ação, se vai reestruturando em  relação à sua família e à a sua terra.  No medo atroz que a perda da mulher lhe causou, Matt acaba por encontrar a amizade e companheirismo nas suas filhas, que nunca tinha tido tempo de cultivar. Ao perceber que o seu Hawaii não é uma terra perfeita, compreende, ironicamente, que a sua preservação é vital. Clooney, nesta interpretação bastante madura, que demonstra a sua versatilidade, enquanto interprete,  relembra-nos o seu papel em Nas Nuvens, de 2009, onde Ryan Bingham, o seu personagem, também passa por um processo de metamorfização emotiva, onde aprende a lidar com os sentimentos em moldes diferentes ao que estava habituado. Clooney, cada vez melhor a encarnar personagens melodramáticas, exterioriza, em Matt, todas as incertezas que o ser humano sente frente à mudança.

Contudo, mesmo sendo um filme que constrói a sua narrativa com base na exploração do crescimento emocional das suas personagens, não se deixa cair em facilitismos dramáticos. Payne, que também é um dos argumentistas, aposta no choque entre mundos, opondo a cultura nativa ao avanço civilizacional do novo mundo, que se revê, em perfeição na personagem de Clooney, um americano de descendência nativa. Para além de um conflito emocional, Os Descendentes é um ensaio sobre o novo e o velho. A morte do passado pelas invenções do futuro. A convivência com a natureza ou o domínio da terra. Como herdar o paraíso, é questão que Matt só poderá resolver após se reconciliar com o passado. Só depois de sarar as feridas do interior, terá a visão suficiente para aceitar a sua terra e ser solidário com a sua cultura.

Mas nem tudo são rosas. À maturidade de Os Descendentes, opõe-se um ritmo desacelerado do fluxo narrativo, bem como a falta de um desenlace mais comprometedor. Apesar do argumento fugir aos chavões do género, fazendo do filme um drama bastante credível e, melhor ainda, sentido, não deixa de ficar a meio gás, visto que não passa da subtileza. A sua carga emotiva transfere-se da narrativa para a audiência com muita audácia e realismo, porém, nunca culmina num ato significativo que sintetize toda a experiência das personagens. A simplicidade da história é, aqui, um contra.

Em suma, Os Descendentes é um filme que merece ser sentido. Uma obra feita para ferir o nosso humanismo e sentir compaixão e solidariedade. Ademais, coloca-nos uma questão importante em torno do domínio sobre a terra: qual o sentido da propriedade no meio daquilo que é de todos?

7.5/10

Ficha Técnica

Título original: The Descendants

Realizado por: Alexander Payne

Escrito por: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash.

Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause e Patricia Hastie.

Género: Drama

Duração: 115 minutos