Há precisamente 33 anos os Clash lançavam, nos Estados Unidos, o seu primeiro single, I Fought the Law.


Depois da fraca adesão do público norte-americano à sonoridade de Give ‘Em Enough Rope, segundo álbum de estúdio dos Clash gravado em 1978, foi necessário esperar  1 ano para que a editora dos britânicos lançasse, nos Estados Unidos, The Clash, álbum de estreia da banda. Após, em 1977, The Clash ter sido comercializado no Reino Unido, afirmando-se com ímpeto, em Julho de 1979, a CBS procede finalmente à sua edição na América.
A par da digressão da banda, realizada no início do mesmo ano,  a edição do primeiro trabalho dos Clash conquista os norte-americanos, que se rendem ao som punk veiculado por Joe Strummer e seus comparsas. Relegando para o fundo do poço Give ‘Em Enough Rope, mal sucedido em terras do Tio Sam, esta edição de The Clash incluía um nova música, nunca divulgada pela banda: I Fought the Law. Original de Bobby Fuller Four, e lançada como single, a canção torna-se um incomparável sucesso, assoberbando o éter musical dos Estados Unidos. É, indubitavelmente, um dos maiores hinos do quarteto britânico e, certamente, um dos maiores hinos da história do punk rock.

Mas, enquanto do outro lado do oceano, os fãs se deliciavam com versos como “Robbin’ people with a six-gun/I fought the law and the law won“, os Clash preparavam, no Reino Unido, London Calling, o terceiro álbum de originais. Se, nos dois primeiros trabalhos, pareceria improvável escapar ao rótulo de banda de punk que prima pela irreverência selvagem e pureza instrumental,  London Calling vem imprimir uma nova dinâmica criativa à sonoridade dos londrinos. Visivelmente influenciados por diferentes estilos de música como ska, reggae ou jazz, a panóplia de gostos e referências dos quatro alargou sobremaneira a sua plataforma de admiradores. O rockabilly de Brand New Cadillac, o bongo-jazz de Revolution Rock ou a pop pérfida de Spanish Bombs são exemplos incontestáveis dessa diversidade e abrangência.

No entanto, convém ter cuidados redobrados ao falar dos Clash. Porque falar dos Clash e cingir a crítica à sua sonoridade é, no mínimo, ultrajante. Para os Clash, mais do que o som emanado dos instrumentos, contava a mensagem. A mensagem política, indissociável do percurso da banda e omnipresente no caminho por esta trilhado durante a década em que se manteve activa. Porque, para estes britânicos, fazer música era lutar contra o neo-liberalismo, combater injustiças e tendências imperialistas, garantir a libertação dos povos e a vitória da working class. Fazer música era divulgar e defender causas. Verdadeiramente comprometidos com as revoluções política e social, mas diferenciando-se ideologicamente das correntes anarquistas associadas ao punk rock inglês, Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon aliaram-se ao combate de problemas como o racismo, solidarizando-se, simultaneamente, com diversos movimentos de libertação. Sandinista!, álbum de 1980, é assim intitulado como homenagem à Frente Sandinista de Nicarágua, que lutava contra a ditadura imposta nos anos 30 pela família Somoza. White Riot, Washington Bullets, The Call-Up, Bank Robber ou Straight to Hell espelham igualmente a preocupação da banda face à hegemonia dos Estados Unidos e à perversidade do sistema capitalista.

Mas os Clash iam mais longe. A sua vertente anti-capitalista repercutia-se também na forma como vislumbravam a arte e a promiscuidade estabelecida com o negócio.  A banda resistia às motivações da indústria músical, centradas na obtenção de lucro, recusando-se por isso a vender os seus álbuns a preços demasiado elevados, como ansiava a sua editora, a CBS. Esta instransigência reflectiu-se em London Calling e Sandinista!: o primeiro, disco duplo, foi posto à venda pelo preço de um único; o segundo, álbum triplo, foi vendido pelo preço de dois. Será justo, no fim de contas, considerar a arte uma mera mercadoria?

                           httpv://www.youtube.com/watch?v=ttJBdr6eBuo