“Auschwitz, the meaning of pain/The way that I want you to die”. Mais controverso não poderia ser o início do terceiro albúm de originais dos Slayer, banhado a ódio e perversão, entre blasfémias, gritos de guerra e raiva pura, na altura em que Kerry King ainda tocava com a sua pulseira de pregos, Tom Araya ainda fazia headbangs alucinantes e Jeff Hanneman não estava a ser comido por uma bactéria devoradora de carne (Oh, a ironia!).

Produzido por Rick Rubin, ainda tendencialmente ligado à Def Jam Recordings de LL Cool J ou Beastie Boys, Reign In Blood nada mais é que um manancial furioso de imagens mórbidas e grotescas, esquecendo os épicos longos e catársicos de Hell Awaits, de 1985, acoplando à qualidade técnica dos executantes a composição maioritariamente thrashy e agressiva, sendo que o disco só tem trinta minutos, opção da banda.

Para além da revolução temporal, esta pedrada sónica no charco, revolvendo católicos, crentes, cépticos e sensíveis, proporcionou atritos entre a distribuidora Columbia Records e a Def Jam, retirando-se do contrato já urdido. Contudo, foi comercializado pela Geffen Records, que omitiu a data de lançamento. Como se não bastasse, Dave Lombardo, um dos mais aclamados bateristas da cena extrema, decidiu abandonar o colectivo a meio da tour norte-americana, alegando que não estava a ser adequadamente recompensado economicamente. Voltou uns meses depois, convencido pela mulher.

Centremo-nos na obra prima. A faixa introdutória, Angel Of Death, continua a manchar a carreira da banda, com uma substância lírica deplorável, retratando as atrocidades do médico e cientista nazi Josef Mengele, assim como as realidades dos campos de concentração, sem qualquer crítica ou injúria. Hanneman ripostou as acutilantes acusações de apologia hitleriana, afirmando que “Nothing I put in the lyrics that says necessarily he was a bad man, because to me — well, isn’t that obvious? I shouldn’t have to tell you that.”.

Após este infeliz intróito, Piece by Piece, uma composição deambulante entre ritmos ternários e quaternários, mais uma descrição brutal de um desmembramento sadio, sempre acompanhado de uma portentosa secção rítmica, seguida de Necrophobic, com dois extraordinários solos por parte dos exímios King e Hanneman, mantendo a linha temática.

Altar Of Sacrifice, escrito, maioritariamente, por King, exibe as crenças do guitarrista, cismando sobre as incongruências da noção de bem e mal, salvador e pecador, lugares comuns do catolicismo, contrastando com o título da faixa seguinte, Jesus Saves. Aqui, a total descontrução da máquina evangélica, uma roleta russa de emoções subleves, apontando sempre as falhas da acção com um casco omnipresente do deus chifrudo.

Continuando a saga, Criminally Insane apresenta-se-nos como uma arguta crítica ao sistema judicial e policial norte-americano, assim como mais um relato cru de homicídios e orgias sanguinárias, de volúpia desmedida. Aqui começa a compreender-se a influência desmesurada do conjunto californiano na vanguarda do death metal, maioritariamente nórdico. Reborn, Epidemic e Post-Mortem, de nomes sugestivos, mais do mesmo a nível temático, mas uma mostra incessante da polivalência musical destes senhores, quer corrompendo guitarras a 210 bpm, quer em malhas cáusticas e exaustivas.

Para terminar, Raining Blood. A descrição pós-apocalíptica da vileza humana, conduzida ao confronto bélico pelo egoísmo e sede de poder, tão ao jeito dos mestres do thrash metal mais negro e rancoroso, que ainda hoje é hino de aficionados e aficionadas. Reign In Blood ergue-se como um dos maiores contributos para o desenvlvimento da arte sonora extrema, ajudando a definir e construir as fundações do metal mundial.