Há poucas coisas que são incontestáveis. Não duvidamos que a chuva molhe, que o fogo queime ou que o perder o autocarro seja irritante. Outra coisa que é incontestável é o sucesso que os Mastodon vieram a ter, não só dentro dos círculos mais pesados da música como também nas publicações mais mainstream. Se há quem os acuse de ter “amolecido” no Crack the Skye, outros consideraram esse um álbum de génio e este novo The Hunter apenas veio polarizar ainda mais as opiniões quanto à banda e à sua legitimidade. No entanto, como já foi dito, o seu sucesso é incontestável. Prova disso é a bastante boa afluência ao concerto que se verificou no Coliseu dos Recreios (não obstante o preço do bilhete e o facto do concerto ser num domingo à noite). Grande parte da bancada estava vazia, mas convenhamos, assistir sentado a um concerto de Mastodon faz tanto sentido como assistir a um filme de olhos fechados: parte do conteúdo é recebida, mas o mais importante é perdido.

A abrir as hostes vieram os companheiros de tour dos Mastodon, os Red Fang. Com uma sonoridade claramente a pender para o Stoner Metal, os Red Fang aqueceram a audiência com autênticas malhas de Metal musculado e sem cerimónias, tendo a maioria sido retirada do mais recente álbum, Murder the Mountains, lançado em Abril do ano passado. Se em CD as músicas são boas e servem perfeitamente para fazer uma viagem com os amigos e com o pé a fundo no acelerador, ao vivo é que é o seu ambiente natural e onde elas ganham maior intensidade e garra.

O concerto foi bem conseguido e equilibrado, disparando músicas mais rápidas como Hank is Dead e Wires, mas também diminuindo a intensidade a espaços para presentear a audiência com descargas mais compassadas e pesadas como Malverde e Throw Up. Para terminar o seu concerto, os Red Fang foram buscar Sharks e Prehistoric Dog ao seu primeiro álbum, acabando assim em beleza uma prestação que, embora curta e algo prejudicada pela qualidade de som no que toca às vozes, não deixou ninguém indiferente e foi um excelente aperitivo para o que se seguiria. Nota especial para os solos duais inspirados de Bryan GilesDavid Sullivan e para a performance demolidora do baterista John Sherman.

Falando em performances demolidoras na bateria, os Mastodon vieram a seguir. A banda de Atlanta tinha estado cá pela última vez no Optimus Alive! 2009, em promoção ao álbum Crack the Skye, assinando um concerto menos conseguido, tanto pela dificuldade em entrosar as vozes como pela qualidade de som. O caso foi bem diferente neste concerto. Em promoção ao novo The Hunter, o concerto dividiu-se inteligentemente entre as músicas mais acessíveis do novo álbum e as músicas monstruosas e espásticas dos primeiros três álbuns, encaixando ainda duas do Crack the Skye lá pelo meio.

Saídos de uma tour extensa em promoção a um álbum recheado de músicas complexas e intrincadas, nota-se claramente que este novo álbum (o primeiro da banda a não ser conceptual) foi concebido para ser tocado ao vivo. E foi com esse novo álbum que os Mastodon iniciaram o concerto, com a atmosférica Dry Bone Valley e a apocalíptica Black Tongue. Logo desde cedo que se apercebeu que os problemas sonoros iriam permanecer, com um som mais enrolado e menos claro do que tinham tido os Red Fang, e infelizmente esses problemas perduraram até ao fim do concerto.

De seguida os Mastodon regressaram aos tempos do Leviathan e do Blood Mountain, com uma avalanche de peso proporcionada por pedregulhos como Crystal Skull, Colony of Birchmen e Megalodon. Anteriormente tinha falado do equilíbrio entre os novos temas e os antigos e é interessante notar que apesar dos novos serem mais imediatos e mais facilmente cantáveis (e o público correspondeu), os temas antigos, pela sua agressividade e peso, conseguiram reacção mais efusivas do público, com mosh e crowdsurfing a rodos. É sempre um prazer ver o Brann Dailor a abusar selvaticamente a sua bateria sem sequer pestanejar.

Thickening (uma das mais fracas do novo álbum) e Blasteroid (uma das melhores) foram as músicas que se seguiram. A falta de audibilidade das vozes realmente foi um ponto negativo que prejudicou o espectáculo, mas quando se ouviam, notava-se que os Mastodon estão cada vez melhores no que toca ao departamento vocal, especialmente nas trocas entre Brent Hinds e Troy Sanders. Sleeping Giant foi uma das grandes músicas da noite, tendo uma melodia que deixou os presentes em êxtase e Ghost of Karelia fez-nos regressar ao Crack the Skye e ao seu conceito mágico e etéreo.

Novamente dando destaque ao The Hunter, os Mastodon prosseguiram com mais 4 músicas desse álbum, com destaque para Spectrelight, obviamente sem as vocalizações de Scott Kelly (dos Neurosis) mas muito competentemente cantada por Troy Sanders e para Curl of the Burl, um dos singles, que, apesar de ter sido recebida de forma duvidosa aquando o seu lançamento, contou com todo o entusiasmo do público. Após esta dose de The Hunter, o que se seguiu foi uma catadupa de clássicos da banda, como Iron Tusk e Aqua Dementia, com especial destaque para as duas faixas monolíticas do seu já longínquo primeiro álbum Remission, Where Strides the Behemoth e March of the Fires Ants. Apesar de todo o seu catálogo ser de grande qualidade, a verdade é que é com faixas como estas que os Mastodon fazem jus ao seu nome, com uma tecnicidade impressionante e um peso avassalador (com um baixo capaz de mandar prédios abaixo). Não é por nada que Brent Hinds e Bill Kelliher são dois dos melhores e mais criativos guitarristas de Metal da sua geração.

Mas a música que levou verdadeiramente os presentes à loucura, desde os fãs do primeiro álbum até aos mais recentes, foi Blood and Thunder. A intensidade da prestação e o caos que se vivia na plateia foram sem dúvida o clímax do espectáculo, e a música que ajudou os Mastodon a tornarem-se um staple do Metal moderno seria uma forma excelente de acabar o concerto. Mas eles tinham uma surpresa final. Com os membros dos Red Fang a fazerem vozes de apoio, os Mastodon tocaram por fim Creature Lives, do último álbum, o que por um lado foi apropriado pela sua natureza gloriosa e convidativa ao coro geral, mas por outro desapropriado pois já nada conseguiria ultrapassar aquilo que foi o ponto mais alto da noite.

Após esta performance intensa e ininterrupta, Brann Dailor veio agradecer efusivamente ao público português, prometendo um regresso no Verão deste mesmo ano. Alguns criticaram a falta de comunicação mas, na verdade, os Mastodon deixaram que a música falasse por eles, e no fim, aí sim mostraram o seu apreço. Com esta performance, demonstraram, mais uma vez, porque é que estão na vanguarda do Metal. Fica a pairar no ar um clima de expectativa, pois sabe-se hoje, com certeza, que os Mastodon estão confirmados para a edição deste ano do Rock In Rio Lisboa (dia 25 de Maio), um festival ao ar livre, onde a sua sonoridade sofre um pouco. Mas para já a sede foi saciada e o mastodonte entrou pelo Coliseu adentro e causou devastação. E é assim que se quer não é?

Setlist de Mastodon:
Dry Bone Valley
Black Tongue
Crystal Skull
I Am Ahab
Capillarian Crest
Colony of Birchmen
Megalodon
Thickening
Blasteroid
Sleeping Giant
Ghost of Karelia
All the Heavy Lifting
Spectrelight
Curl of the Burl
Bedazzled Fingernails
Circle of Cysquatch
Aqua Dementia
Crack the Skye
Where Strides the Behemoth
Iron Tusk
March of the Fire Ants
Blood and Thunder
Creature Lives

Fotografias de Rui Miguel Pedrosa.