J.D. Salinger é tão bem-amado pela Quetzal que depois do clássico À Espera no Centeio, chegou a vez de também Franny e Zooey ser editado. Este é um díptico imperdível sobre os irmãos prodígio Glass, sobre o vácuo que ocupa todos os espaços da nossa cultura e o lugar que a religião oferece para abrigar do desamparo esquizofrénico e fútil da vida.

O tema é elevado, mas o seu tratamento “académico” rejeitado. Resta-nos então uma brilhante história, depurada ao máximo e com excelsos diálogos, passada em cinco espaços do quotidiano. Até dá vontade de ver aplicada no teatro, tal é o humor e expressão aplicadas nas personagens.

Franny é a mais jovem de sete irmãos, nascidos com um intelecto raro e lançados desde cedo para o estrelato da rádio com o programa de quizzÉ Uma criança Sábia’. Paradoxalmente é isto mesmo que ela não encontra, nem na faculdade, nem no espaço cultural em que vive.

A demanda pela sabedoria não colhe um fruto que seja, antes uma maior consciência da verborreia e superficialidades que pautam o dia-a-dia, mesmo procurando nas esferas mais intelectuais. Assim, a rapariga torna-se lânguida, cínica, depressiva e abraça uma ideia religiosa do mantra, rezar sem cessar, de forma a que a oração seja incorporada no seu corpo e algo místico se revele, como a última opção.

A tentar resgatá-la temos Zooey, o segundo mais novo. Irónico e sarcástico, vê-se obrigado a recorrer aos fantasmas dos dois irmãos mais velhos, para a chamar à atenção das contradições e inutilidade da religião e trazer a irmã de volta ao brilhantismo e equilíbrio.

Apesar da descrição mais ou menos dramática, o livro consegue-nos provocar vários momentos de (sor)riso, confunde-se com literatura “fácil de ler” e deixa-nos com um momento final gravado na memória, perfeito para discutir no café como se fôssemos qualquer uma das personagens deste clássico. Meio século depois, a voz purificada de Salinger persiste.

Ficha Técnica

Género: Ficção

Tradução: Salvato Telles de Menezes

N.º de páginas: 176