Há momentos que acontecem uma vez na vida. Não na vida. Na história. A oportunidade de o mundo descobrir Guimarães começou ontem, mais que no Pavilhão Multiusos da cidade, com um belíssimo espectáculo do guitarrista Manuel D’Oliveira, na rua, na proximidade com as pessoas, com os La Fura dels Baus.

Música, projecções, gigantes futuristas e História. Começa a ser hábito em todos os grandes espectáculos que Portugal oferece ao mundo a presença da sua História. Aliás, sempre foi hábito pensar-se que a única coisa que temos de inspirador é a História. Nada contra. Mas cuidado com isto. Às vezes é demais. Neste caso não foi.

As referências à História não foram tantas como se esperaria, e mais importante que isso, não foram óbvias, inculcaram-se no espírito dos que assistiam e a imaginação fez o resto. Nos únicos momentos de informação declarada, apareceu um D. Afonso Henriques e, mais tarde, as palavras “Aqui nasceu Portugal”, como que uma confirmação de que estávamos todos a falar da mesma coisa.

O resto foi gráfico e criativo numa relação entre a tradição e a modernidade. O cavalo gigante é uma boa ideia e bem executada por diversas razões: dos valores de nobreza que representa, basilares na fundação do reino, à forma como foi executado, com movimentos genuínos, com leveza até. Esta graciosidade não esteve evidente na figura gigante, que acabou por entediar até, no momento da sua locomoção. Era a Europa.

Apesar de imponentes, o que de mais notável há em todo o espectáculo é o trabalho multimédia projectado. Uma reestetização dos símbolos da cidade num trabalho em que os edifícios usados na projecção não foram apenas telas. Integraram o espectáculo, fizeram em diversos momentos parte da história. Que sirva isto como modelo para o ano que agora começa para Guimarães: que a cidade não seja a tela, que poderia ser outra, mas sim o motivo singular, distintivo e integrante daquilo que se lá passa. Guimarães foi, nesta actuação e na História, o início da nacionalidade. Quer ser, neste ano, o fim mais importante, por onde passam todos os caminhos da Europa.

A cidade é, aliás, tanto neste espectáculo como na conceptualização de Guimarães 2012 um podo central. É nela que tudo acontece e de onde a cultura parte. É um factor de aproximação das pessoas.

A proximidade que, também nesta demonstração dos espanhóis La Fura dels Baus, foi constante. O espectáculo não aconteceu, distante, lá à frente. Aconteceu por aqui, entre nós, foi possível ver de várias perspectivas. O público habitou-o. O palco foi toda a praça. E o público só poderia responder a este convite com um mar de gente eufórica com a oportunidade de estar envolvida num momento tão importante para a sua cidade. É esperar que a alegria da primeira vez se prolongue por todas as outras.

Em todo o mundo, Guimarães é neste ano um dos melhores lugares para se visitar e o que isso nos vai trazer são bens de uma magnitude que pode ser inestimável. Depois do New York Times eleger Guimarães como dos destinos a não perder em 2012, foi recentemente a vez da Time Out de Singapura. Singapura. Do outro lado deste mundo. Para Guimarães, a nossa pequena Guimarães.

E repare-se na perspectiva que deve ser a dos que querem ser vencedores: Não é só a oportunidade de Guimarães se dar a conhecer. É sobretudo a oportunidade de o mundo conhecer Guimarães. Eles é que têm muito a ganhar ao descobrir um sítio irrepetível. Para eles também vai ser inesquecível.

httpv://www.youtube.com/watch?v=HKpPDYeqglg&list=UUBcnlwnbwcBP44QlhLhPyow&index=1&feature=plcp

* Este artigo é, por opção do autor, escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.