Etta James teve uma vida preenchida. Nem sempre de momentos bons, mas constantemente de experiências que a levaram ao limite. A sua aparência, ao longo da sua carreira em constante mutação, parece oferecer-nos a visão de diferentes mulheres. A sua vida recheada de acontecimentos poderia ter sido vivida por várias mulheres. O cabelo, o seu peso, a roupa, a maquilhagem são a superfície visível da cantora que aproximou o gospel, a soul, o rock e a pop. Ela é uma diva, embora pouco convencional, mas como todas as divas, marcante, imperfeita, misteriosa e inesquecível.

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Nascida Jamesetta e com mãe adolescente, a pequena parecia, desde os coros da igreja e das aulas de música, evidenciar-se naturalmente pela voz. Por volta dos 12 anos, em San Francisco tinha com amigas a banda The Peaches e foi assim que, nos anos 50, foi descoberta por Johnny Otis. O músico levou-a a gravar a sua primeira música e sucesso, Wallflower (roll with me, henry), e deu-lhe o nome que hoje toda a gente lhe chama. Etta James.

Os grandes êxitos de  Etta passariam pela Chess Records. Na foto, com o fundador da editora, Phil Chess (à esquerda), e com Ralph Bass, em 1960 data em que começou a trabalhar com Chess e lançou o álbum At Last!. Etta deixa a sua marca na música que já tinha sido cantada por outros e é com ela que se eterniza.

Etta James tem cerca de 20 álbuns na sua discografia. No final dos anos 50 e nos anos 60, os seus singles eram êxitos no primeiro lugar das tabelas. Conta-se entre eles Trust me, All I Could Do Was Cry ou Security. Apesar de ter suspendido a sua carreira durante doze anos, após lançar, em 1978, Deep in The Night, depois de voltar ao activo não parou, tendo lançado o seu último álbum em 2011, The Dreamer. Em cima, a voz de At Last grava, em 1967, o álbum Tell Mama, para muitos, um dos melhores da soul de todos os tempos. Na imagem, Etta James em estúdio, em 1967.

A maior pedra no sapato de James terá provavelmente sido a dependência da heroína e, mais tarde, também do álcool.  Nos anos 70 começou a consumir droga e foi dependente durante anos, o que afectou a sua carreira, estando debilitada ao ponto de a interromper e colocar em causa o seu futuro no mundo da música. Mas a adição afectou também as suas relações familiares que, com alguns, já eram tensas. O exemplo mais flagrante será o do marido, Artis Mills,  que passou dez anos atrás das grades por posse de droga encobrindo Jamesetta. O final dos anos 70 e os anos 80 marcam a busca esgotante por clínicas de desintoxicação. O fim dos anos 80 trazem Etta de volta ao público e aos espectáculos, como revela a foto de uma actuação de 1989.

A reabilitação trouxe no entanto outro problema de saúde grave: a obesidade. O excesso de peso de Etta levou-a aos 180 quilos. Apesar de nesta altura fazer concertos, era constantemente ajudada a entrar e sair de palco e chegou mesmo a actuar de cadeira de rodas. O ponto final a esta situação chegou no ano de 2002, por alturas do álbum Burnin’ Down the House: Live at the House of Blues. Nesta altura a cantora ícone da soul reduziu o seu peso a metade por via de uma intervenção cirúrgica. Em cima, Newport Jazz Festival, 1991.

O reconhecimento de Etta James veio no final da sua carreira. Entre os anos 90 e a primeira década de 2000 ganhou três Grammy, um dos quais premiava a sua carreira, e em 1993 o seu nome é incluído no Rock and Roll Hall of Fame. Anos antes, em 1984, a sua cidade natal e a América pediam o seu regresso quando a convidaram para cantar o Hino norte-americano na abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Em 2003, Etta James fica para sempre inscrita no passeio da Fama.

No cinema, em 2008, Beyoncé interpretou Etta James em Cadillac Records. A relação das duas cantoras parece nunca ter sido clara perante a comunicação social norte-americana. Se logo após o lançamento do filme, Beyoncé se desdobrava em agradecimentos e homenagens a James e Etta James retribuía com simpatia, depois da eleição de Barack Obama, as relações azedaram. Beyoncé foi convidada pelo presidente para cantar At Last, no baile inaugural do seu mandato. A cantora veterana respondeu dizendo que aquela era a sua canção e chegou mesmo a dizer que, desta forma, Barack Obama não era o seu presidente. Os fãs dividiram-se na defesa das duas cantoras.

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A leucemia de Etta James foi-lhe diagnosticada há um ano e acabou por vencê-la 5 dias antes dos seus 74 anos. Para além desta doença, também a senilidade pairava sobre a cantora. Os seus últimos momentos foram passados ao lado do marido Artis Mills e dos filhos.

* Este artigo é, por opção do autor, escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.