Há exactamente 42 anos, a 17 de Janeiro de 1970, Jim Morrison e seus pares subiam ao palco do Felt Forum (actual WaMu Theatre), em Nova Iorque, para deliciar os presentes com o último concerto dos The Doors.

Ainda antes do lançamento de Morrison Hotel, álbum sucessor de The Soft Parade (editado em Julho de 1969), os Doors escolhem o espaço do Felt Forum para dar a conhecer as faixas do seu novo trabalho. E fazem-no de uma maneira, no mínimo, caricata. Tentando recalcar o insucesso de The Soft Parade, duramente criticado pela imprensa musical, decidem dar dois concertos no mesmo dia (um early gig e um late gig). Com uma sonoridade próxima daquilo a que vinham habituando os seus fãs, e enveredando pela recriação dos traços característicos do blues, os espectáculos foram um indubitável êxito. Os insaciáveis seguidores nova-iorquinos pediam mais, o que obrigou a banda californiana a repetir a dose, logo no dia 18. Quatro concertos em dois dias, portanto.

A inesgotável energia de Jim Morrison e o deleite proporcionado pela concordância rítmica dos instrumentos do grupo tornaram as actuações verdadeiramente aprazíveis. Morrison apresentava-se irreverente e irrequieto, como sempre fora seu hábito, incapaz de permanecer estático por mais de uma canção. No tradicional jogo de microfone, característico das exibições do vocalista, o fundador da banda levava a plateia ao êxtase, bradando simultaneamente músicas como Roadhouse Blues ou Waiting for the Sun. Cabelo esgrouviado, barba em desalinho e movimentos corporais frenéticos, desgarrados, dissolutos: tudo marcas irrepreensíveis do frontman dos The Doors, dificilmente olvidáveis por quem presenciou qualquer um destes quatro concertos.

A sinergia do grupo, evidenciada pela perfeita harmonia entre a voz de Morrison, os teclados de Manzarek , a guitarra de Krieger e a bateria de Densmore, fizeram daquele par de dias um marco na história do rock do século XX. E representaram um marco na história da própria banda que, um ano e meio depois, sofreria um enorme abalo com a inesperada morte de Jim.  Os concertos originaram o afamado Live In New York, obra que reproduz as quatro actuações pela sua ordem original, acumulando em seis CDs um número de interpretações que se aproxima das nove dezenas.

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Mas a história dos quatro magníficos remonta a meados da década de 1960. Jim Morrison, um aspirante a poeta, e Ray Manzarek, um teclista de blues que tinha estudado piano clássico em miúdo, comprometem-se a formar uma banda. Os dois estudantes da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, unidos pela paixão comum pelo blues-rock, recrutariam logo de seguida Robby Krieger e John Desmore, que se ocupariam, respectivamente, da guitarra e bateria. O seu som, inspirado por aquele estilo musical e influenciado pelo ambiente vivido na Califórnia dos anos 60, haveria rapidamente de atrair a atenção de proprietários de bares locais, como o London Fog ou o Whiskey a Go-Go, local onde, pela primeira vez, a banda toca a apocalíptica e assombrosa The End.

Logo em 1966, o conjunto grava The Doors, álbum homónimo que garantiria o início da sua caminhada rumo a um patamar superior do rock. Strange Days, de 1967, e Waiting for the Sun, de 1968, seriam então os propulsores da carreira dos californianos, responsáveis pela sua projecção além fronteiras e pela ascensão do seu nome a um nível único na cena rock do século XX. Com uma inestimável quantidade de admiradores espalhados por todo o mundo, a banda marcou e continua a marcar gerações, rendidas ao apelo selvagem lançado por Jim Morrison em canções como Break on Through, Light My Fire, Love me Two Times ou L.A. Woman.