Quem nunca viu um filme de Stanley Kubrick faça um favor a si mesmo. Feche esta página, saia de casa e vá comprar, à loja multinacional da área mais próxima, um qualquer DVD do realizador. Se tiver gostado: óptimo tem duas opções: (1) volte a sair de casa e a comprar outro filme, desta vez procure o comércio nacional; (2) volte a abrir esta página e leia o artigo. Caro leitor, não se deixe enganar. Hoje falar-se-á de Kubrick, o fotógrafo.

Quem diria que o mesmo homem que dirigiu Lolita, Dr. Strangelove, 2001: A Space Odyssey, A Clockwork Orange, The Shining, entre muitos outros, é também o mesmo que está por detrás da lente de centenas de fotografias, algumas até agora desconhecidas. Poucos sabem, mas Kubrick começou a sua carreira profissional como fotógrafo.

Kubrick com a filha durante as filmagens de The Shining

Look, onde tudo começou

A paixão de Kubrick pela fotografia dá sinais ainda jovem e no colégio, onde desempenhou o cargo de fotógrafo oficial da escola que frequentava. Relatos descrevem um aluno pouco empenhado nos estudos, mas um interessado no que o rodeava.

Aos 17 anos foi o mais jovem fotógrafo a ser contratado pela conhecida revista da época, Look, conhecida por dar mais destaque às fotos que aos textos. A expressiva foto de um vendedor de jornais que não contém a sua emoção ao ler a notícia da morte do Presidente Franklin D. Roosevelt vale a Kubrick, não só a recompensa monetária de 25 dólares, mas proporciona-lhe um emprego a tempo inteiro na revista como repórter fotográfico. Desempenha esse cargo até 1951, data em que abandona para se dedicar a tempo inteiro à imagem, mas agora em movimento.

Johnny on the Spot, 1946 - Look Magazine

A sua assinatura e estilo fotográfico cunham muitas das cenas mais marcantes da sua carreira como realizador. Citando Rainer Crone, Stanley Kubrick “inventou um conceito totalmente novo de fotografia, completamente diferente, que consiste em contar histórias com imagens fixas. Ele já era então um cineasta, todas estas fotos são verdadeiras storyboards”.

As fotos de Kubrick podem ser encontradas no livro da autoria de Rainer Crone, publicado em 2005, intitulado Drama and Shadows. Na Biblioteca do Congresso Norte-Americano estão disponíveis 100 das cerca de 300 imagens doadas captadas enquanto fotógrafo da Look, que fazem parte do espólio fotográfico.

Ao serviço da Look, passou por Portugal em Agosto de 1948 com a tarefa de capturar os locais turísticos mais conhecidos do nosso país.

Shoe Shine Boys (On Fence), 1947 - Look Magazine

Pela primeira vez à venda

Graças ao esforço combinado do Museum of the City of New York e da VandM (Viantage and Modern), uma galeria de arte online, os trabalhos de Stanley Kubrick como fotojornalista estão, pela primeira vez, disponíveis para venda.

Examinados mais de 10 mil negativos a preto e branco, os escolhidos compõem uma edição limitada para venda online. Os preços variam entre os 250 e os 1500 dólares, conforme o formato disponível em quatro tamanhos, 11×14, 16×20, 20×24 e 36×36. A impressão de alta qualidade está a cargo do Museu que irá receber, também, a maioria das receitas.

As fotografias disponíveis no site da VandM, sob o título Stanley Kubrick’s New York, mostram o “drama – humano e artístico – que se impõe ao trabalho de Kubrick”.

High Wire Act, 1948 - Look Magazine

Com a cidade de Nova Iorque, nos anos 40, como pano de fundo, da colecção fazem parte fotografias como a utilizada na capa do livro Drama & Shadows e figuras conhecidas como a actriz Betsy Von Furstenberg, o pugilista Walter Cartier e Dwight Eisenhower antes de ser eleito Presidente dos EUA. Tal como nos seus filmes, cada fotografia é ambiente de uma narrativa, e não poderíamos ter melhor contador de histórias que Kubrick.

É uma edição de luxo para fãs e coleccionadores.

Se não puder adquirir uma destas obras, não lamente e faça uma visita à galeria online. As fotografias estão disponíveis para visualização gratuita.

* Este artigo é, por opção do autor, escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.