Polémico, mas sempre brilhante, Roman Polanski regressa aos cinemas com O Deus da Carnificina, depois do seu último filme O Escritor Fantasma, de 2010. Desta vez, o realizador juntou-se a Yasmina Reza para adaptar ao grande ecrã a peça Le Dieu du Carnage, da autoria da dramaturga. Trazer o teatro para o cinema não é tarefa fácil, mas Polanski fá-lo da melhor forma possível, escolhendo, para começar, também o melhor elenco possível.

 

O Deus da Carnificina conta apenas com quatro personagens, interpretadas por Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly, e toda a acção passa-se num único espaço, a casa dos Longstreet.  Tudo isto poderia limitar e muito o desenrolar da acção e não cativar o público. No teatro há uma dinâmica muito diferente do que acontece no cinema, tudo é físico, está tudo a acontecer naquele exacto momento em frente ao espectador. Polanski teve portanto trabalho redobrado neste filme. Há que saber como tirar o melhor partido possível desta adaptação. O resultado esse não desilude, felizmente.

Depois dos seus filhos de 11 anos se terem envolvido numa briga, os Longstreet e os Cowan reúnem-se civilizadamente para conversar a propósito do sucedido. Mas o que inicialmente parece ser uma conversa amigável, rapidamente começa a fazer vir ao de cima a verdadeira natureza dos casais…

Yasmina Reza tem aqui uma belíssima peça, de carácter muito psicológico, mas cheia de humor, e o certo é que a adaptação que fez, juntamente com Polanski, resultou num óptimo filme.

Tudo gira em torno dos dois casais, que se reúnem para amigavelmente resolverem os problemas entre os seus filhos. É muito curioso acompanhar como os pais, inicialmente tão cordiais e educados conseguem, no decorrer do filme, tornar-se iguais, ou porque não dizer, piores que as crianças. Ao longo daquela tarde, a “degradação” das personagens acaba por revelar a sua verdadeira natureza. A psicologia humana é aqui desconstruída de forma por vezes hilariante, onde o humor mordaz está sempre presente.

E para um argumento como este, eram necessários os actores certos. Polanski acertou em cheio: Jodie Foster, Kate Winslet (ambas distinguidas com uma nomeação para Melhor Actriz de Comédia nos Globos de Ouro deste ano pelo seu trabalho neste filme), Christoph Waltz e John C. Reilly. Depois de tantas interpretações destas personagens no teatro, os quatro actores tinham sobre si uma grande responsabilidade e estiveram bem à altura da tarefa.

Jodie Foster tem uma interpretação fantástica, na pele de Penelope Longstreet, uma mulher simples e simpática, mas que, ao mesmo tempo, “ferve em pouca água”, como se poderá ver. Kate Winslet é Nancy Cowan, numa interpretação divertida, mas que me fazia esperar mais, uma mulher moderna e muito educada… ou pelo menos assim parece. Quanto aos homens, Waltz é Alan Cowan, o advogado um tanto ou quanto arrogante e irónico, que nunca larga o trabalho (e o telemóvel). Nesta personagem a mudança acaba por ser curiosa, com algumas fragilidades a virem ao de cima. John C. Reilly, com uma interessante interpretação, surge como o simpático vendedor Michael Longstreet, aparentemente o mais calmo dos quatro.

O único palco da acção, a casa dos Longstreet, mais propriamente a sala, consegue tornar-se sufocante, não só para as quatro personagens, como também para o público. A bomba rebenta ali. Apesar das várias “ameaças” dos Cowan em ir embora, o certo é que acabam sempre por ficar, parecendo haver ali qualquer coisa que os impede de abandonar aquela casa (momento em que não pude deixar de recordar o filme surrealista O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel). A casa é o palco (ou a prisão?) onde se deveria chegar a um consenso sobre duas crianças, mas onde afinal são os dois casais que (des)esperavam por soltar o seu lado mais infantil.

Os espelhos que se encontram na divisão parecem ajudar a adensar a atmosfera desconfortável que ali se vive, podendo também ser entendidos como uma forma de mostrar o outro lado das personagens, esse lado que se revela naquela tarde. A banda sonora, de Alexandre Desplat, acompanha na perfeição todo o desenrolar da acção, fundindo-se com ela.

O Deus da Carnificina perde pela dificuldade da adaptação, não por não ter sido bem executada, porque foi, mas por haver demasiados elementos “peça de teatro” que no cinema não funcionam da mesma forma. No entanto, Roman Polanski não desilude e, em pouco mais de uma hora, consegue divertir e fazer uma bela desconstrução do ser humano, com o que ele tem de mais rude e de mais louco.

7.5/10

Ficha Técnica

Título Original: Carnage

Realizador:  Roman Polanski

Argumento: Yasmina Reza e Roman Polanski, baseado na peça Le Dieu du Carnage, de Yasmina Reza

Elenco: Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly

Género: Comédia, Drama

Duração: 79 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

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*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945