Vindos da cidade de Akron, Ohio, os The Black Keys são um grupo que, à semelhança de contemporâneos seus como os The White Stripes (paz à sua alma) ou The Kills, praticam uma sonoridade Punk Blues, género que ganhou notoriedade na década passada e que procura ressuscitar o purismo do Blues Rock norte-americano com uma estética DIY e uma urgência e crueza Punk. Contudo, a fama só atingiu o grupo de Dan Auerbach (guitarra/voz) e Patrick Carney (bateria) o ano passado, com o lançamento do maravilhoso Brothers. Procurando capitalizar os bons resultados de 2010, os The Black Keys lançaram no início deste mês El Camino, sétimo álbum da banda e que está aqui em destaque. 

Apesar de a tendência parecer bastante adversa, o Punk Blues permanece bem vivo. Apesar do fim dos The White Stripes e o desaire do mais recente disco dos The Kills terem sido sem dúvida rudes golpes para o género, felizmente a música dos The Black Keys mantém-se fresca e viva o suficiente para carregar este movimento às costas. Depois de um brilhante Brothers ter servido de porta de entrada para muitos novos fãs da banda, tendo-se revelado como um dos meus discos preferidos de 2010, este duo tinha uma tarefa difícil quando se propôs a gravar-lhe um sucessor. E apesar de achar que este sétimo LP do grupo falha em manter o nível de Brothers, El Camino consegue, ainda assim, mostrar uns The Black Keys em grande forma.

Depois de uma abordagem mais calma e subtil do Punk Blues vista em Brothers (que ainda assim não descurava dos seus momentos de agitação), os The Black Keys trazem, neste El Camino, sonoridades bem mais simples e directas, recusando detalhes intricados ou composições complexas. Esse “despir” de complicações é complementado com uma influência mais pronunciada de grupos como Black Sabbath ou Led Zeppelin (oiça-se Little Black Submarines, “reencarnação” de Stairway to Heaven), que faz com que El Camino seja um álbum rápido sujo e inquietante.

No que toca à produção, muitos ficaram receosos quando souberam que os The Black Keys tinham decidido voltar a trabalhar com Danger Mouse, aquele que foi o técnico que ajudou o duo a gravar Attack & Release (2008), o disco mais “domado” e fraco do duo. Contudo, esses medos não poderiam ter sido mais infundados, pois o que se assiste neste El Camino é a uma estética muito diferente da do malogrado LP de 2008, muito mais solta, abrasiva e Lo-Fi. No que toca aos vocais de Auerbach, estes continuam despreocupados e “roqueiros”. Todas estes componentes juntam-se num disco que muito me agradou.

Contudo, há falhas que me deixaram um bocado de pé atrás com este El Camino. Para começar, há todo o problema das letras, que neste sétimo LP estão muito menos desenvolvidas, o que faz com que me soem demasiado simplórias para o meu gosto. O facto de algumas das faixas terem de recorrer a clichés e lugares-comuns para fazerem sentido, algo que não acontecia em Brothers, é algo que me deixa muito desapontado com o trio criativo de Auerbach, Carney e Danger Mouse.

Outra questão que me fez franzir a sobrancelha foi o facto de este disco me ter soado, por vezes, um pouco homogéneo demais, algo que está relacionado com o “simplificar” da sonoridade em relação a Brothers. O que os The Black Keys ganharam em energia e pujança, perderam em relação à magia dos detalhes que compunham o sexto disco de originais, que tornavam cada canção numa pérola diferente das outras. Estes defeitos mostram que, apesar de não ser uma má obra, El Camino está a uns passos largos do seu antecessor.

Entre as canções de que mais gostei neste destaco a vibrante Lonely Boy, a enérgica Hell of a Season, e Little Black Submarines, a minha favorita de El Camino, que nos traz 4 minutos galopantes de puro Blues Rock. Como faixas inferiores aponto Dead and Gone, Sister e Mind Eraser, que falham em manter a qualidade geral do álbum.

Para terminar, El Camino é um LP muito bom, com um Punk Blues bem ao estilo dos The Black Keys, e que vai ao encontro daquilo que os fãs do género esperam de um registo do grupo. Pode falhar em acompanhar a qualidade de Brothers, mas é preciso reconhecer que isso deve-se mais pela excelência do sexto disco do grupo do que pelas falhas de El Camino. Agora só nos resta desejar que os The Black Keys continuem a presentear-nos, com esta regularidade, álbuns assim tão bons e por muito tempo.

Nota Final: 8,4/10