Apontado por muitos como o maior nome da música portuguesa da sua geração, B Fachada é já visto como a concretização sólida da promessa que havia sido em 2009, aquando do lançamento do seu primeiro LP, Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado, disco lançado após quatro EP’s muito promissores. Dois anos depois, Fachada mantém a promessa feita em Zappa Português de lançar “dois discos por ano”, e depois de ter lançado no início do Verão o grandioso Deus, Pátria e Família, Bernardo mostra-nos agora o seu álbum de Inverno, B Fachada, o seu segundo homónimo, que será hoje analisado.

B Fachada está longe de ser um nome consensual, mas eu confesso-me um fã deste cantautor nacional. A sua produtividade (6 EP’s e 4 LP’s em 5 anos), a sua criatividade e a forma brilhante de aliar melodias simples a letras brilhantes fizeram com que me rendesse à obra de Bernardo, pelo que não é de estranhar que tenha ficado com grandes expectativas para este B Fachada, especialmente depois do maravilhoso B Fachada É Pra Meninos (2010), e do EP/canção de Verão, Deus, Pátria e Família, uma mordaz crítica de 20 minutos ao estado actual do nosso país. E felizmente não posso dizer que tenha ficado descontente com o que ouvi em B Fachada, que apesar de estar longe de ser o melhor que Fachada já fez, não deixa de ser um belo álbum.

Artista em constante renovação, B Fachada já passou por várias fases; começando com o experimentalismo meio avant-garde dos primeiros EP’s, Fachada rapidamente evoluiu para um Folk com elementos tradicionais portugueses (um “Folque” fachadista), estando agora em terrenos mais Indie Pop com influências Jazz, que é exactamente onde se situa este último B Fachada, que mantém esse apoio forte no piano, e mostra um aprofundar do “mergulho” nas influências do Jazz.

Além disso, vemos também neste quarto LP do artista a utilização muito mais extensiva de instrumentos electrónicos e sintetizadores, criando um ambiente mais intimista e penumbrento. Vemos também a introdução de batidas electrónicas, bem mais sincopadas e quase “dançáveis”, fazendo deste o disco mais “físico” de Fachada. Isto mostra uma inovação permanente e constante de Fachada, que recusa rótulos e estagnações, algo que me agrada bastante na obra dele.

Ao nível das letras, Bernardo continua brilhante como sempre, mantendo os geniais jogos de palavras, as tiradas irónicas e o humor sardónico que caracterizam a sua obra. Contudo, a lírica deste B Fachada é bem mais introspectiva e pessoal do que antes, com o cantautor a descrever episódios da vida de uma personagem que é B Fachada, como se pode ouvir em Cantar o Apelo ou Está na Hora da Passa. Na voz, mantém-se o canto idiossincrático de Bernardo, que foge à afinação perfeita, mas que tão bem me soa. Na produção, o já repetente Eduardo Vinha forma equipa com Fachada, e traz muito reverb e uma estética crua e “de garagem”, em continuidade com Deus, Pátria e Família, algo que muito me agrada.

Porém, B Fachada não é uma obra perfeita, e até está aquém do melhor que o artista já fez no passado. Um dos aspectos que me desagradou neste disco foi a falta de apelo de alguns temas, que estão algo sonolentos devido à vagarosidade que o piano por vezes traz. Outro defeito é o facto de um par de canções se alongarem em extensas dissertações repetitivas, que fizeram com que eu tenha perdido o interessem em momentos. Isto, aliado ao facto do disco ser curto demais para o meu gosto, faz com que este B Fachada não consiga manter o nível do LP anterior, B Fachada É Pra Meninos.

No que toca aos pontos altos deste disco, destaco a delicadeza de Sozinho no Róque, a sensualidade de Não Pratico Habilidades e a energia e electricidade de Mané-Mané, a minha faixa favorita deste B Fachada. Entre as faixas que considero mais fraquinhas estão Roupa de Estrada, Barriga Pelo Amigo e Os 2 no Polibã, que apesar de não serem más canções falham em cativar-me tanto quanto as restantes.

Em suma, B Fachada é mais um grande álbum, vindo de um artista que cada vez mais se afirma no panorama musical português como uma figura incontornável. É certo que eu esperava melhor deste quarto LP, especialmente depois do esplendoroso Deus, Pátria e Família, mas a verdade é que este B Fachada é um disco de difícil digestão, que foi feito sem a preocupação de agradar a outro que não o seu autor. Os bons discos são sempre assim.

Nota Final: 8,3/10