Diz-se que o último concerto de uma tour é sempre especial, e sem fugir à regra, os The Smashing Pumpkins provaram isso mesmo no passado dia 9, no Campo Pequeno. Encerrando a parte europeia da digressão “The Other Side of the Kaleidyscope”, destinada a apresentar alguns temas de Oceania, álbum da banda agendado para 2012, Billy Corgan e companhia deram, na segunda data consecutiva em solo nacional, um espectáculo memorável, tanto pela qualidade do concerto como pela magnífica composição da setlist.

Na bagagem, vieram os Ringo Deathstarr, uma jovem banda texana de Shoegaze. Trazendo consigo o seu primeiro LP, Colour Trip, este trio abriu a noite com um concerto onde reinaram os sons etéreos e distorcidos da Dream Pop. Irrepreensíveis ao nível da actuação e da atitude, a banda foi “traída” pela acústica do Campo Pequeno (sempre “delicada”) e pela fraca receptividade do público, fruto de uma grande diferença entre as sonoridades dos Ringo Deathstarr e dos The Smashing Pumpkins. Apesar disso, posso dizer que fiquei com uma boa impressão deste projecto.

Todavia, a noite era dos The Smashing Pumpkins, e o público português fez questão de realçar isso, recebendo calorosamente Billy Corgan (guitarra/voz), Jeff Schroeder (guitarra), Nicole Fiorentino (baixo) e Mike Byrne (bateria) à medida que estes entravam em palco, marcavam os ponteiros as 21h15min. Seguiu-se um concerto especial, embalado pela recente reedição de Gish (1991) e Siamese Dream (1993), que misturou “clássicos” com canções novas de uma forma perfeita. A evidenciar isso esteve a abertura, com Frail and Bedazzled, um outtake de Siamese Dream.

Porém, a efusividade do público português não se ficou apenas pelo início, tendo sido presença constante ao longo da noite; Muzzle, Geek U.S.A., Soma e Thru the Eyes of Ruby  e muitas outras foram recebidas de braços abertos pela audiência. Mas o primeiro ponto alto da noite estava reservado para o par de canções Cherub Rock/Tonight, Tonight, que puseram o Campo Pequeno em estado de euforia, fazendo parecer que estávamos de volta aos anos 90 das camisas de flanela e dos sapatos de cano alto.

Contudo, o compenetrado Corgan rapidamente subverteu a tendência nostálgica do show, e mostrou ao público a sua nova obra, Oceania, que me surpreendeu pela positiva. É difícil impressionar quando se tem na sua discografia a santíssima trindade de Gish, Siamese Dream e Mellon Collie and the Infinite Sadness, mas a verdade é que Oceania conseguiu soar extremamente bem, pelo menos ao vivo. Canções como Oceania, Quasar, Pinwheels, e Pale Horse foram prova disto, e cativaram, pelo menos em parte, o público nacional.

Mas como os “clássicos” imperam sempre, foi com eles que Billy Corgan decidiu terminar a primeira parte do espectáculo, tocando um medley de Zero/Bullet With Butterfly Wings que foi entusiasticamente acompanhado pelo público, e que fez com que os artistas abandonassem o palco envoltos numa aura mágica, que suplicava por um encore. Depois de 5 minutos de espera, e de toda uma audiência a chamar pela banda, deu-se o regresso, e as primeiras palavras de Billy Corgan dirigidas aos espectadores (“Thank you”), seguindo-se A Song For A Son e I Am One, momentos de extrema cumplicidade entre a  banda e o público.

No entanto, a cereja no topo do bolo estava reservada para o final. Com a saída de cena dos restantes The Smashing Pumpkins, Corgan fica em palco para tocar uma última canção, a bela e delicada Disarm, acompanhado apenas da sua guitarra e de um coro de milhares de vozes. Com isto, apagou-se a imagem de “virtuoso da técnica” que foi passando ao longo do concerto, e evidenciou-se que Billy Corgan permanece, desde os anos 90, o mestre e senhor do Alternative Rock, encerrando assim a tournée da forma mais espectacular que se poderia imaginar. Uma noite única!

Setlist:
Frail and Bedazzled
Silver Fuck
Starla
Muzzle
Geek U.S.A.
Soma
Siva
Thru the Eyes of Ruby
Cherub Rock
Tonight Tonight
For Martha
Oceania
Quasar
Pin Wheel
Pale Horse
Zero
Bullet With Butterfly Wings

Encore:
A Song for a Son
I Am One
Disarm

*créditos: fotografias no interior do artigo por Manuel Lino, via TVI 24-IOL Música.