Manuel João Vieira está aí para as curvas. Com meninas roliças, entenda-se. Os Ena Pá 2000 têm um álbum novo, O Álbum bronco, e apresentaram-no ontem no Music Box, em formato rapidinha. O showcase teve entrada livre. Abarrotou: de gente e de erotismo com poucos eufemismos.

Com o Cabaret Maxime fechado, o Musicbox também esteve à altura de receber o concerto dos tipos que chamam todas as coisas pelos nomes (de preferência os menos apropriados). Não sobrou muito espaço e muitos foram os que ficaram à porta, mas ainda deu para gingar.

O projecto Corações de Atum deixou-nos socialmente preocupados. Portugal precisa de gajos que cantem sem tabus, tal qual pensam as nossas mentes perversas. Pensámos que o Manuel João Vieira estivesse anestesiado e dedicaria o resto da sua carreira a produzir canções normais sem asneiradas. Não! Álbum bronco mostra que o léxico de sedução brejeira está vivo e em forma.

O público estava conquistado à partida. Os mais velhos porque já tinham saudades dos concertos desconcertantes da banda; os mais novos, como nós, que nunca tinham tido a oportunidade de ver o Sr. Vieira ao vivo, estavam eufóricos porque não é todos os dias que se está à vontade num espaço em grosseira folia. Mais do que palmas, ouviam-se assobios. Normal. Nos cabarets é assim que se agradece.

A primeira música mostra que os Ena Pá 2000 estão atentos ao desenrolar frenético do progresso tecnológico e já instalaram o update do sistema. Não andassem eles sempre à frente no tempo. Chama-se PDF e faz poupar dinheiro. Não há limites para a estupidez. E este é dos melhores elogios que podem receber.

Entre Mulher Portuguesa (toma, Quim Barreiros, é para aprenderes!) e Lulu (iniciada por uma cacofonia de ladrares crescendos), «duas das músicas mais atrasadas mentais que conseguimos produzir ultimamente», sobressaem os ornatos das duas voluptuosas dançarinas (que ajudaram nos coros) e todo o cenário estético-parvo que Phil Mendrix proporciona. Mais do que os seus solos de guitarra, genial é ele próprio. Quanto à parte das músicas serem as mais atrasadas mentais dos últimos tempos, ficamos com muitas dúvidas. Legítimas. A concorrência é forte.

Capa do álbum

Sem tempo para respirar, levamos um tiro: “Não há amor como o primeiro. Desde aí é sempre para melhor!”. Há bandas que ganham dinheiro com clichés e frases-chave. Seguindo o mesmo caminho, resta-nos dizer que Manuel João Vieira tem frases-chave-mestra. Pernas abertas «nas desertas» (gravada com a participação de Rui Reininho) foi outro dos momentos altos da noite, falando das “belezas naturais” das ilhas com toda a emoção e pompa que estas merecem. «A gente não ensaiou, achámos que era melhor ensaiar ao vivo» explica um suposto engano na battle de solos de guitarra. Afinal, ensaiar é para as bandas normais.

Houve tempo para os “clássicos”: Psicólogo de Putendas e Na Guarda são das mais concorridas. No ouvido ficou «a minha mãe faz arte com couve lombarda». O concerto não só tem bolinha vermelha no canto superior direito como é restrito a quem tem altos índices de sentido de humor.

É óbvio que uma hora depois ninguém queria que o showcase terminasse. «Querem mais? Vão ver-nos ao Santiago Alquimista [na passagem de ano]».

De registar o facto de, precisamente no concerto de promoção do novo trabalho, não ter havido álbuns à venda. Só para continuar na onda da imprevisibilidade.

Para a despedida, a famosa Marilú, a mulher cujo nome provoca rima fácil. Foi uma noite de boa disposição e retardação a rodos, um concerto catársico, perfeito para desligar o cérebro e libertar a tensão. É difícil perceber como é que os membros da banda conseguem manter uma cara séria durante tanto tempo.

É certo que não houve tempo para És Cruel e outras tantas de um requintado (dentro da javardice) repertório, mas o concerto foi um enorme prazer. Não vale a pena especular sobre os dotes sexuais de Manuel João Vieira, mas o multifacetado artista prova a cada trabalho que é campeão no piropo e nos preliminares.

*Com a colaboração de António Moura dos Santos e Francisco Morgado Gomes