As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro) é o último filme do realizador francês Robert Guédiguian. Fez parte da Selecção Oficial do Festival de Cannes na categoria Un Certain Régard e foi premiado recentemente pelo Parlamento Europeu, sendo o vencedor do prémio LUX. Este prémio, criado em 2007, tem como objectivo premiar “a universalidade dos valores europeus, a diversidade cultural e o processo de construção europeia”. Com um valor de 87 mil euros, permite legendar o filme nas 23 línguas oficiais da União Europeia e adaptar o filme para pessoas com deficiência visual ou auditiva. Foi também premiado duplamente na 56ª Semana Internacional de Cinema de Valladolid com a Espiga de Prata e com o prémio do público para melhor longa-metragem da selecção oficial. Está também nomeado para o Prémio Louis Delluc que será anunciado brevemente.

A estreia em Portugal não está ainda agendada apesar de, em Maio, a Clap Filmes ter anunciado a sua compra em Cannes. Em Itália, estreou sexta-feira e decorreram algumas ante-estreias com a presença do realizador e da sua mulher Ariane Ascaride (Marie Claire), actriz principal no filme. O Espalha-Factos marcou presença numa dessas ante-estreias com um espaço de debate no fim da projecção de As Neves do Kilimanjaro.

O nome do filme pode induzir em erro, já que existe outro filme de 1952 com o mesmo título inspirado no romance homónimo de Ernest Hemingway. Neste caso, o título vem da canção Kilimandjaro, de Pascal Danel. Já o argumento é inspirado na poesia Les Pauvres gens (Os Pobres) incluído no poema épico A lenda dos séculos, de Victor Hugo, ainda que com um fim muito diferente. Por outro lado, a influência do Discurso à Juventude, de Jean Jaurès, filósofo e político francês, é notória, com extractos desse discurso a aparecerem no filme.

O filme ambienta-se em Marselha, mais precisamente no bairro de L’Estaque, onde o realizador cresceu. Além da sua mulher, o actor Jean-Pierre Darroussin (Michel) que é já um habitué dos seus filmes é protagonista neste drama. Outros actores repetem-se pois, como confessou o realizador, é como se tivesse uma companhia de teatro em Marselha a que recorre sempre.

O facto de ter crescido numa família da classe operária (o seu pai trabalhava no porto) influenciou o seu cinema que versa por norma a realidade social, confundindo-a com a sua militância (em jovem no Partido Comunista Francês e desde 2008 no Partido da Esquerda). No caso deste filme, aborda a vida de um casal em que o marido é despedido. Este dirigente sindical dedica-se então aos netos e a uma vida pacata com a mulher, até ao momento em que sofre um assalto traumatizante em casa enquanto jogava às cartas em família. Neste assalto, uma boa soma de dinheiro e um bilhete para umas férias na Tanzânia, prenda de aniversário de matrimónio oferecida pelos filhos, são roubados, em conjunto com os cartões de crédito. Por uma estranha coincidência, dias mais tarde, Michel descobre que um dos autores do roubo era um colega de trabalho também ele despedido no mesmo processo de despedimento que ele. O verdadeiro drama é que este ladrão tem condições de vida mais difíceis que Michel e Marie Claire. Isso provoca uma reflexão profunda não só no casal mas também no resto da família (cunhados e filhos).

Num retrato por vezes pungente da realidade, por vezes estereotipado, a realidade da classe operária francesa é abordada de uma forma que nos faz pensar no que acontece em todo o mundo nos dias de hoje. No conflito de gerações (velhos privilegiados vs jovens precários), no valor da amizade, apesar da divergência de opiniões, e na coragem de seguir em frente quando tudo nos deita abaixo.

A banda sonora está impecável (excepto a primeira canção na minha opinião). As imagens de Marselha e do seu porto dão um toque de beleza ao filme. E os diálogos quando não são sérios e/ou políticos mas sim humorísticos são deliciosos. Por tudo isto (e mais o que não disse para não haver spoilers), aconselho vivamente este filme.

7/10

Ficha Técnica

Título Original:  Les Neiges du Kilimandjaro

Realizador: Robert Guédiguian

Argumento: Robert Guédiguian e Jean-Louis Milési

Elenco: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussi, Gérard Meylan, Grégoire Leprince-Ringuet, Maryline Canto, Anaïs Demoustier e Adrien Jolivet

Género: Drama

Duração: 107 minutos