Aconteceu algo que não se vê todos os dias, ali pelo Teatro Maria Matos. O duo musical Hawk and a Hacksaw, do Novo México (EUA), apresentou a sua banda sonora do filme de 1964, Sombras dos Antepassados Esquecidos (de título original Tini zabutykh predkiv), do póstumo realizador russo Sergei Paradjanov. Assistir a uma película tão apelativa do ponto de vista visual, com a sua inebriante banda sonora interpretada mesmo diante dos nossos olhos revelou-se um acto artístico marcado pela plenitude.

Jeremy e Heather irrompem nas sombras do palco, um de cada extremo, ele no direito, junto da percussão, ela no esquerdo, do lado do piano, onde se distingue o vermelho de uma espécie de xaile típico, uma possível recordação de Budapeste, onde viveram ambos durante dois anos. Separa-os a tela onde será pintado um drama poético de encontros e desencontros, juntam-se nas flutuações musicais, nos sons místicos do folclore e do folk de um Leste onde a riqueza cultural nos chega tão arrebatadora.

O filme assenta na história de um camponês do povo gutsul ucraniano, oriundo das montanhas dos Cárpatos. Ivan, que se apaixona pela filha do assassino do seu pai, Marichka, ausenta-se da aldeia e perde o amor de uma vida. Abate-se-lhe a depressão e a angústia, partindo numa deambulação desnorteada. Casa-se com Palagna e a vida voa com o vento, como levada por uma nefasta tempestade.

Há uma congruência genial do projectado com a banda sonora dos Hawk and a Hacksaw, o violino de Heather e o acordeão de Jeremy completam uma obra já de si tão íntegra, onde as cores quentes quase saltam do plano, as texturas realmente se tocam e as paisagens inefáveis são isso mesmo, uma contemplação incontornável da natureza, lado a lado de requintes antropológicos tão peculiares. Rasgados choros de violino em momentos lúgubres, solidão tocada em piano ou um acordeão assíduo na acção frenética de um filme que vive tanto da técnica, mostraram-se adornos interessantíssimos no seio de uma carga simbólica tão robusta (do esotérico e da feitiçaria aos pormenores da tradição religiosa).

Apesar de um intervalo forçado, devido a um problema técnico no acordeão de Jeremy, o público mostrou-se receptivo ao privilégio de experimentar a modalidade proposta pelos Hawk and a Hacksaw. Olhar este clássico russo e escutar a resposta numa eslava sinfonia tão cadenciada foi como assistir a uma conversa entre os dois músicos e o cineasta. E conversas destas não se têm todos os dias.