Terrivelmente belo, genialmente violento, assim é Drive – Duplo Risco, o exemplo do melhor cinema que se fez em 2011 (ou porque não dizer, nos últimos tempos). Depois da estreia nacional ter acontecido no Lisbon & Estoril Film Festival, no passado mês de Novembro, um dos melhores filmes do ano chega finalmente às salas de cinema.

E desengane-se quem espera que este seja mais um filme de acção ao estilo de Velocidade Furiosa. Drive está, felizmente, bem longe disso. Trata-se de um thriller tantas vezes perturbante, que consegue conjugar romance e violência sem nunca cair em exageros.

Não foi por acaso que Nicolas Winding Refn recebeu o prémio para Melhor Realizador em Cannes. O seu trabalho em Drive proporciona a quem quer que o veja uma experiência incrível, que vai da excelente realização à interpretação magistral de Ryan Gosling, passando por tantos outros elementos que fazem deste filme o que ele é.

Drive conta a história de um homem, que nos é apresentado apenas como Driver (Ryan Gosling), que, durante o dia trabalha como duplo em filmes de Hollywood, e, à noite, é motorista de assaltos. A par destas actividades Driver trabalha também na oficina de Shannon (Bryan Cranston). Tudo muda quando conhece Irene (Carey Mulligan) e o seu filho Benicio (Kaden Leos). Standard (Oscar Isaac), marido de Irene, acaba de sair da prisão e vê-se obrigado a participar num assalto para pagar uma dívida. É aí que Driver o decide ajudar, não imaginando as consequências que isso traria.

Dificilmente chegará aos Óscares, não pela qualidade, que essa não lhe falta, mas por não ser o tipo de filme que a Academia aprecie, pela violência (e muito sangue) e por se distanciar do tipo de filme “hollywoodesco” por assim dizer, não sendo, de todo, um blockbuster. Não fosse isso e este seria o mais justo vencedor dos prémios.

O argumento é interessante, mas poderia facilmente perder-se se não tivesse sido tratado da forma que foi. Refn trabalhou-o de forma muito inteligente. Em Drive, tudo se liga e, ao mesmo tempo, surpreende a cada instante. À primeira vista parece um filme de acção, recheado de perseguições, e a verdade é que elas existem (são três no total), mas o que realmente interessa vai muito para além disso.

Um filme muito eighties (onde até a banda sonora contribui para esse ambiente), apesar de, claramente, não se passar nessa época, toda a história de Drive se centra em Driver, o seu protagonista. Será ele o reflexo do que de mais belo e mais chocante pode haver no ser humano, o amor e a vingança. Driver é como o próprio filme: de poucas palavras. Os olhares, os gestos dir-nos-ão bem mais do que elas.

É incrível como nos conseguimos ligar ao protagonista apesar de mal o conhecermos, já que pouco ou nada nos é contado sobre ele, e mesmo o que nos é apresentado não nos dará a melhor imagem de si. Um motorista de assaltos um tanto ou quanto perturbado (que nos poderá remeter para Travis de Taxi Driver) não será certamente o melhor exemplo a seguir, mesmo que, como o próprio refere, apenas conduza e não use armas.

O certo é que, queiramos ou não, a empatia com Driver acontece, e para isso contribuem as relações que estabelece com Irene e Benicio. O romance é bem medido e a aproximação a Irene, as intensas trocas de olhar e os gestos de carinho entre o casal fazem adivinhar um romance que não pode acontecer. A relação é apresentada de forma subtil, parecendo inevitável e, ao mesmo tempo, impossível. Benicio é também uma peça fundamental para que se conheça o lado mais doce de Driver. É de enternecer a relação que mantém com a criança, sendo quase que um substituto do pai, enquanto este está preso. Desde o momento em que se conhecem torna-se comum jogarem ao jogo do piscar de olhos, para verem quem pisca primeiro (momentos que poderão ganhar alguma importância no decorrer do filme), e desde o primeiro momento se compreende o carinho de Driver pela criança.

Mas se, por um lado, se está perante um protagonista doce e carinhoso, o assalto em que Driver ajuda Standard é decisivo para que se conheça o outro lado. A personagem principal fará tudo para proteger Irene e Benicio, e uma espécie de vingança toma conta de si, tornando-o capaz de cometer os actos mais brutais. As cenas de violência são cruas e impressionantes, mas até nelas há beleza. Estão carregadas de inteligência e Refn soube como filmá-las para contar a história. É de reforçar que este é um filme bastante pesado, que consegue arrepiar e impressionar até os mais fortes. É fantástico como o realizador consegue passar de uma cena romântica para outra de extrema violência (a cena do elevador ficará, muito provavelmente, na história) sem nunca perder o ritmo ou a coerência.

No que toca a aspectos técnicos, Nicolas Winding Refn revelou-se um verdadeiro artista. É dada uma enorme atenção ao detalhe, com a câmara a captar tudo com uma mestria e beleza incríveis, onde é muitas vezes utilizado o slow motion (tanto na cena mais romântica como na mais atroz). Por outro lado, é-nos dado também o olhar das personagens, o espectador vê o que elas vêem. A câmara segue-as de frente e muitas vezes também de costas, dando especial destaque ao casaco com o desenho do escorpião, imagem de marca de Driver.

E é interessante reparar como esse mesmo casaco é testemunha do percurso do protagonista. Inicialmente, serve para tapar o pequeno Benicio quando este adormece. Com o passar do tempo, essa imagem (quase de pureza) vai mudando, ao ponto do casaco ficar com os vestígios das mortes que começam a acontecer, cada vez mais sujo de sangue. A degradação da personagem está aí espelhada.

E com esta dimensão, Drive só poderia ter um final à sua altura. É atingido o clímax perfeito que só poderia culminar no desfecho mais digno possível para o filme do ano.

O trabalho da direcção de fotografia de Newton Thomas Sigel é excelente, jogando muito com a iluminação, e a banda sonora é magistral, responsável por adensar o ambiente de todo o filme. Cada tema encaixa perfeitamente na cena que lhe diz respeito e proporciona uma experiência ainda mais emotiva. Cliff Martinez é o compositor da maior parte das músicas, a que se juntam mais cinco fabulosos temas de Kavinsky & Lovefoxxx, Desire, College, The Chromatics e Riz Ortolani.

O elenco porta-se no geral muito bem, com destaque, claro, para a prestação de Ryan Gosling, provavelmente, na sua melhor performance de sempre. Depois de, este ano, já o termos visto em mais três filmes e com desempenhos fenomenais em dois deles (Blue Valentine e Nos Idos de Março), como Driver o actor pôde testar os seus limites, se é que os tem. Interpreta na perfeição uma personagem solitária e distante, que consegue ser o mais carinhoso ou o mais violento dos homens. Carey Mulligan, Bryan Cranston e Albert Brooks fazem também um óptimo trabalho.

Refn traz assim um filme como já fazia falta e Gosling mostra mais uma vez a sua qualidade como actor e como merece estar na corrida aos Óscares (depois de ter sido esquecido pela interpretação de Blue Valentine). Drive irá conquistar principalmente os amantes de cinema, mas não deixará absolutamente ninguém indiferente. Certamente que a opinião geral será a mesma: Arrebatador.

9.5/10

Ficha Técnica

Título Original: Drive

Realizador:  Nicolas Winding Refn

Argumento: Hossein Amini, baseado no livro de James Sallis

Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman

Género: Thriller, Crime, Drama

Duração: 100  minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos