Está em cena até 29 de Janeiro na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II a peça A Paixão segundo Eurico, um projecto coordenado por Cristina Carvalhal, a partir de Alexandre Herculano.

Eurico, interpretado pelas únicas três actrizes em palco, Cristina Carvalhal, Inês Rosado e Sara Carinhas sente um amor exacerbado por Hermengarda, amor impossível por proibição de seu pai, que o faz sofrer noite e dia. Tal sofrimento leva-o a tornar-se monge, refugiando-se na alucinação da poesia.

Um amor que não cessa, que não enfraquece, que não desaparece porque “aos afectos profundos não lhes é dado morrer”. Quando o imenso se transforma em eterno e continua fresco na memória. Um amor que a imaginação alimenta porque “a imaginação do Homem não pode dormir”.

Tenta sob os novos hábitos encontrar um refúgio, mas nem junto à natureza é capaz de acalmar sentimentos corrosivos. Não consegue dormir, não pára de sonhar, incapaz de fugir aos pensamentos que o destróiem. “Porque não adormeço eu?”. A reposta viria do fundo do seu coração. Um “coração morto porque as paixões o quebraram”.

No ano de 749, os Árabes declaram guerra aos Godos, conquistando progressivamente a Península Ibérica. É então que o presbítero Eurico decide partir para a guerra. Surge o “Cavaleiro Negro”, animado por uma ânsia de sangue. Eurico transforma-se, Eurico vai à luta, Eurico vai à conquista de certezas.

Cai no chão o sangue dos golpes que as armaduras não protegeram. Durante esse tempo sofre mutilado pelas batalhas, mas sofre mais ainda com a descoberta de que Hermengarda “jaz cativa em poder dos infiéis” Derrubam-se obstáculos, encurta-se a distância que os separa em busca de uma certeza: a vida de Hermengarda. Esse é o nome da ferida que não sara nunca no coração de Eurico.

O reencontro tem lugar. Dois amantes frente a frente. Hermengarda, reconhecendo-o, espera salvar o seu amor. Mas é tarde demais. As trocas tinham já sido feitas: “o amor pelo sacerdócio. O sacerdócio pelo amor”. O pecado e o crime, os sentimentos e as sensações. O amor divino ou o amor humano?

É já tarde demais para salvar um amor impedido pelo presbitério, tarde demais para salvar o destino da Península. Tarde demais para concertar o passado.

A peça encarna mais do que a obra de Alexandre Herculano, através de jogos de luz e sombra, dos movimentos das personagens, do entrelaçar dos corpos, da feminilidade mesmo na guerra. A originalidade do tratamento do enredo recai fortemente sobre o facto do papel de Eurico ser interpretado, não só por três pessoas, mas também pelo facto de serem mulheres.

Um destaque dado à fusão entre actrizes e o espaço cénico. Nenhum pormenor é deixado ao acaso na Sala Estúdio. A força das interpretações vai muito além do impacto que o próprio texto carrega em si. O sofrimento é incorporado de forma soberba, a vontade de luta também. Se ao princípio reina a estranheza face àquilo que acontece em palco, no final a sensação é de enorme satisfação por se ter tido a oportunidade de assistir a tão completa obra de arte.

Eurico está em fim só”. Só com as sua escolha, com o seu destino. “Porque não adormeço eu?”. Porquê aguentar mais tempo, prolongar o sofrimento? “Assim caiu Eurico para nunca mais se erguer”. Restam as memórias daquilo que foi “um consolo e, ao mesmo tempo, um martírio”.

Assim cai um herói. Assim cai uma história de amor.

POR: Luísa Mello Gomes e Wilson Ledo