Martha e George estão juntos há anos. Na sua relação já nada é desconhecido. A rotina fez questão de tornar familiar todos os pontos fracos e os pontos fortes de cada um dos membros do casal. Mas existem momentos de ruptura, em que as certezas de uma vida são postas em causa, onde se atiram à cara daqueles que mais amamos as nossas maiores frustrações, os nossos maiores medos. Isto porque sabemos que vamos ser compreendidos e aceites, independentemente das palavras (capazes de ferir) que saem da nossa boca e reveladoras da natureza negra e oculta do nosso ser.

Este é o ponto de partida para Quem tem medo de Virginia Woolf? que estreia hoje no Teatro Nacional D. Maria II. Encenada por Ana Luísa Guimarães, esta nova produção conta com Maria João Luís, Virgílio Castelo, Sandra Faleiro e Romeu Costa a interpretar as personagens da obra de Edward Albee.

Regressamos aos anos 60, mais precisamente à sala de estar de Martha (Maria João Luís) e de George (Virgílio Castelo) numa noite de sábado, cujo cenário nos dá inteira envolvência ao nível de contexto. Somos transportados para dentro de uma divisão onde a influência académica (representada nas estantes repletas de livros) é notória, deixando transparecer até uma ideia de pouca familiaridade do espaço.

Após regressarem de uma visita ao reitor da universidade, pai de Martha e sogro de George (também ele professor universitário na área da História), no seio deste casal despoleta o mau estar. Todo um passado começa a surgir em acusações que partem de Martha e que põem no maior desconforto o espectador que se sente impotente face à situação. O tom sobe, as descobertas tornam-se mais duras até que… toca a campainha.

Nick (Romeu Costa) e Honey (Sandra Faleiro) surgem neste ambiente como o casal convidado pelos anfitriões. Ele é o novo professor que chegou à universidade para leccionar Biologia e ela a sua recente esposa. Jovens, bonitos, elegantes, saudáveis – o reflexo da perfeição. À partida, Martha e George esforçam-se por manter uma postura de discrição, mas rapidamente as insinuações de Martha se tornam evidentes, deslizando na corrente de verdades que o álcool vai ajudando a tornar mais forte. A princípio, o casal convidado começa por mostrar vontade em ir-se embora face ao ambiente hostil entre Martha e George, contudo são quase que obrigados a ficar pelos anfitriões.

A partir daqui, os ”jogos de verdade” tornam-se uma constante. As acusações mais duras. As verdades mais cruéis. O sofrimento mais puro. Martha e George chocam um contra o outro sem sentido aparente, desfiam expectativas do passado que o outro defraudou, tocam em pontos fracos da relação. O amor que à partida os poderia unir é como que transformado em ódio. Um ódio do mais desumano possível para com a pessoa que se ama, mas que ainda assim os une.

Nick e Honey acabam por se envolver também eles neste ambiente de guerra, embora não se atacando directamente um ao outro. Através das conversas que vão tendo separadamente com os anfitriões vamos construindo uma imagem que desconstrói a perfeição que os caracterizava ao início. Um casamento por conveniência, uma recusa em ter filhos, as vontades de traição, os planos de um futuro não partilhado. Nick e Honey acabam por transformar-se num espelho do passado de Martha e George. A história parece tornar-se cíclica.

Como nos diz AlbeeO inferno pode ser uma sala-de-estar confortável e um casal insatisfeito”. Imaginemos pois quando se juntam dois casais. Aí é inevitável que as personagens se vão revelando à medida que se descobre a mentira e a ilusão que envolvem as suas vidas conjugais. Quem tem medo? Quem tem medo de Virginia Woolf?

Esta peça está longe de ser light para o espectador. Com interpretações de peso, o público é por várias vezes confrontado com sentimentos de desconforto (e alguma estranheza) face ao que acontece em palco. Esta é uma peça que exige maturidade, envolvência, vontade de compreender as personagens e as suas vivências. Este é um texto que continua actual apesar do tempo que por ele passou, por se poder assistir, ainda hoje, a situações semelhantes no nosso quotidiano.

Quem tem medo de Virginia Woolf? “Eu tenho”. Resta-nos apoiar a nossa cabeça no ombro do outro e chorar as palavras que não deviam ter sido soltas. Amanhã poderá ser diferente.

Até 29 de Janeiro de 2012, na Sala Garrett, de quarta a Sábado às 21:00 e aos Domingos às 16:00.