Planeta ou não, a melancolia tocou nas almas de todas as personagens que entraram no novo filme de Lars Von Trier. Irreverente, como sempre, o realizador dinamarquês construiu um filme surrealista em torno do sentimento de angústia. O Lisbon & Estoril Film Festival não perdeu a oportunidade de apresentar esta antestreia.

No início do filme, várias imagens, sem ordem específica, de cariz surrealista, preenchem o ecrã da sala, como se de uma tela se tratasse. Visualmente apelativas, as figuras movem-se em slow motion, como se fossem marionetas de papel, bidimensionais, a percorrer um percurso sem fim. Uma noiva agrilhoada a raízes de árvores, dois planetas azuis a colidirem, uma mulher a segurar uma criança no colo, enquanto avança com o seus pés subterrados na lama. Imagens que aparentemente não fazem sentido, mas que indiciam o futuro de cada personagem na história.

A sensação de desespero vai crescendo ao longo da narração, começando por Justine, cujo nome dá título à primeira parte do filme. Justine é a noiva de um casamento milionário, preparado pela sua irmã Claire e o cunhado rico John. O atraso dos recém casados perturba a disposição dos dois organizadores, que esperavam há horas pela sua chegada. A noiva, que inicialmente achava graça à impaciência da sua família, começa gradualmente a entrar num estado depressivo, sem motivo aparente. Desmancha-se em lágrimas e desaparece regularmente da festa, deixando o marido perplexo com a sua atitude. Claire é a única pessoa que percebe o estado de demência de Justine e tenta encorajá-la a prosseguir com o copo-de-água, sem obter nenhum sucesso.

Na segunda parte intitulada Claire, observa-se o progresso da irmã de Justine. Claire, casada e com um filho pequeno, fica inundada de preocupações. Por um lado, tem de tratar da sua irmã Justine, cujas psicoses e fobias a impedem de reagir, por outro, fica assustada com aproximação do planeta Melancolia. John, o seu marido, é perito em astronomia e está convicto de que não há motivos para alarme, a rota do planeta não vai coincidir com a da Terra. Porém Claire tem um pressentimento de que tudo vai acabar mal e, por conseguinte, a melancolia também a atinge profundamente.

Neste filme não se sabe quem possui realmente total sanidade. O pressentimento e a certeza podem ser confundidos com loucura. O modo como o espetador visualiza cada personagem vai se alterando. As três grandes figuras da história Justine, Claire e John têm um percurso muito oscilante. Quem pensávamos que era perturbado, torna-se a pessoa mais lúcida da história e quem parecia ter total razão e consciência do seus actos, torna-se o individuo mais abalado, capaz de cometer suicídio sem explicação.

Este é o ponto surpreendente a que chegamos no filme, os que exteriorizam o seu sentimento de angústia são os mais lúcidos, pois sabem que estão sozinhos neste mundo insignificante e sabem desta verdade. Aqueles que não aceitam a sua condição e preferem render-se às aparências, são os iludidos, que ao depararem-se com a triste verdade, não são capazes de suportar a vida.

É a primeira vez que vimos Kristen Dunst num registo mais mórbido e é curioso ver a sua transformação no papel de Justine. A actriz consegue transmitir beleza, mesmo quando se encontra despojada de brilho e mentalmente perturbada. Kristen recebeu o prémio de melhor actriz em Cannes pela sua prestação e bem mereceu essa homenagem. Apática, mas lúcida, com temor de tudo, porém com consciência do fim do mundo, Justine é sem dúvida um autêntico desafio e Kristen Dunst esteve a altura de interpretá-la.

Charlotte Gainsbourg é novamente a aposta do realizador. No filme anterior Anticristo, a filha de Serge Gainsbourg interpretava o papel de uma mãe sofrida, que se culpabilizava pela morte do filho. O bébe caiu pela janela, enquanto ela e o seu marido psiquiatra tinham relações sexuais. Obviamente este episódio traumático fê-la questionar sobre o prazer sexual e a maldade da humanidade. Em Melancolia, a personagem Claire, passiva e consciente da realidade, cuida da sua irmã doente e também entra em depressão ao saber da possível colisão do planeta. O desespero é permanente nesta personagem, que nunca mostra um sinal de felicidade em todo o filme.

Lars Von Trier, apesar das polémicas em torno das suas aspirações nazis, continua a surpreender-nos com os seus filmes que superam a realidade. Já em Anticristo (apresentado, igualmente, na edição 2010 do Estoril Film Festival), o sentimento de descontentamento também habitava nas personagens, contudo havia uma justificação mais consistente para a sua existência: a morte de um filho. Neste caso, em Melancolia, o início é uma sátira à pomposidade do matrimónio, que acaba por terminar num pesadelo. O clima pesado instala-se gradualmente  no filme. A angústia reina devido à aproximação de um planeta, que pode não existir fisicamente, mas que no plano mental ganha corpo e encontra-se bem presente.

8/10

Título original: Melancholia

Realizador: Lars Von Trier

Argumento: Lars Von Trier

Elenco: Kristen Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgärd, Stellan Skarsgärd

Género: Drama

Duranção: 136 minutos