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Mildred Pierce, a grande mulher

As duas adaptações do livro de James M. Cain, Mildred Pierce, a série televisiva de 2011 e o filme de 1945, foram apresentadas no Lisbon & Estoril Film Festival.

Mildred Pierce é uma mulher dos anos 30, que se cansa das traições e da pouca ajuda financeira do marido, acabando por pedir o divórcio. Rebela-se contra a sua condição de dona de casa e, para sustentar as suas duas filhas menores, entra no mercado de trabalho.

A princípio torna-se difícil encontrar uma ocupação, visto não ter qualquer experiência, contudo, por sorte, consegue ser aceite num restaurante como empregada de mesa. O trabalho humilde, de baixo estatuto, torna-se humilhante, principalmente para a sua filha mais velha, Veda, obcecada pelas grandezas e ingrata pelo esforço da mãe.

Mildred, com ajuda de vários colaboradores, consegue cumprir a promessa que faz a Veda: abre um restaurante e torna-se uma mulher de negócios, surpreendendo os homens da sua vida:Wally, o sócio da empresa Pierce,  Sr. Pierce, o seu primeiro marido e Monty Beragon, o boémio amante de Pasadena.

  O filme e a série, apesar de usarem como base o mesmo livro, são narradas de forma distinta. O filme está construído num formato policial, inicia-se com um crime e Mildred Pierce, já no auge da sua carreira, a ser interrogada sobre o caso que ocorreu em sua casa. Durante todo o filme, o espetador acompanha a história de Pierce, para tentar desvendar a identidade do criminoso. Em contrapartida, a série retrata toda a vida de Mildred Pierce, desde o início como dona de casa em Glendale, até atingir o sucesso na área de restauração. Neste caso, nenhum crime é cometido e, por conseguinte, a história é linear sem a introdução da investigação criminal, tornando-se menos apelativa.

Tentando realizar um paralelismo entre o filme e a série, existem vários pontos na história que os distanciam. Mildred é orgulhosa, não aceita todos os trabalhos que lhe são propostos e aprova as exigências da sua filha na série, contudo, no filme, a dona de casa é mais humilde e admite qualquer trabalho para poder sustentar a sua família.

No filme, Wally o sócio de Sr. Pierce, é um individuo “engatatão”, que sempre esteve interessado em Mildred. A descoberta do divórcio fê-lo aproximar-se da futura empresária, porém não chegam a ser amantes. Na série, Wally não possui o mesmo charme e carácter cómico, que introduz ritmo à história. Em vez disso é mais reservado e só desperta interesse por Mildred, quando esta se separa do marido. Os dois tornam-se amantes, mas ambos não nutrem sentimentos um pelo outro. Esta falta de química entre os dois personagens é um ponto negativo para a dinâmica da série, em que a presença de Wally é pouco relevante para a continuidade da narrativa.

Se no filme, nos deparamos com uma Veda mais materialista e ingrata com a mãe, na série, a filha mais velha mostra-se carinhosa e demonstra as suas más intenções somente na recta final da trama. O progresso da personagem Veda é, neste caso, mais intensa na série do que no filme. No filme, Veda é muito directa nas suas observações e desde cedo se conhece a sua crueldade espontânea, em contraste, na série, a filha mais velha aparece inicialmente como uma criança muito dotada, orgulhosa e dedicada à família, que gradualmente se torna uma mulher fria, mais calculista, capaz de retirar tudo o que a sua mãe possui. Enquanto no filme, o espetador consegue desculpabilizar maior parte dos seus actos, na série é impossível ter compaixão pelo seu comportamento hediondo.

Outros elementos são introduzidos na série e não são narrados no filme, como a existência da personagem Lucy, a presença constante do primeiro marido, Pierce, durante toda a história e a carreira de Veda na ópera, como soprano, pormenor que é explorado em demasia, pois não acrescenta nada de preponderante para a narração do argumento.

As duas prestações das actrizes principais, tanto na série como no filme, são fabulosas. Na série, Kate Winslet consegue transmitir brilhantemente os sentimentos da personagem, uma Mildred Pierce orgulhosa e com ambição de subir na vida para dar o melhor para a sua filha. A actriz e o actor secundário, Guy Pearce, que interpretou o papel de Monty Beragon, receberam um Emmy pelas suas actuações irrepreensíveis. No filme dos anos 40, Joan Crawford, a preto e branco, exprime toda a humildade de uma mãe, que obtém qualquer trabalho para sustentar a vida de luxo de Veda.

Em suma, da mesma obra produziram-se duas adaptações diferentes, com grande qualidade. Uma, com um toque de film noir, policial, que termina de uma forma trágica, mas mantendo o amor familiar intacto, outra, com uma história mais pormenorizada, menos dramática, em que o amor entre Mildred e Veda é abalado fortemente pelas circunstâncias.

Filme Mildred Pierce ou Alma em suplício, versão pt (1945)  – 8.5/10

Realizador: Michael Curtiz

Argumento: Ranald MacDougall

Elenco: Joan Craword, Jack Carson, Zachary Scott, Eve Arden, Ann Blyth, Bruce Bennett

Baseado na obra de James M. Cain, Mildred Pierce

Género: Drama/Policial

111 minutos

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Série de 5 episódios, Mildred Pierce (2011) – 8/10

Realizador: Todd Haynes

Argumento: Todd Haynes, Jon Raymond e Jonathan Raymond

Elenco: Kate Winslet, Guy Pearce, Evan Rachel Wood, Brian F. O’Byrne, James LeGrossMare Winningham

Baseado na obra de James M. Cain, Mildred Pierce 

Género: Drama

339 minutos em 5 episódios

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