Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei e Jennifer Ehle. De que outros ingredientes precisamos para fazer um bom filme? Realizado e protagonizado por George Clooney e produzido por Leonardo DiCaprio, Nos Idos de Março conta a história dos “bastidores” das eleições primárias em Ohio, Estados Unidos da América, tendo sempre em cima da mesa a lealdade, a justiça, o trabalho, a confiança, bem como a traição, a desilusão e a derrota.

Todo o nosso mundo é constituído por imagens e se formos a ver o mundo político encontramos um sem número delas. Num filme com argumento demasiado forte para enfraquecer ao longo do decorrer da acção, é preciso saber como manter uma linearidade no tempo, na imaginação e, sobretudo, na construção de uma narrativa.

A grande questão formula-se: Como é que um mundo não tão próximo de todos, consegue ser relatado de forma tão clara, concisa e abrangente que agarra o mais desinteressado pela política logo nos primeiros planos? Como é que em 114 minutos se pode revelar as diversas teias que se constroem com linhas invisíveis e tramam a vida de quem por ela tenta passar?

Ora, felizmente, George Clooney sabe ser um bom realizador pois, sem dúvida, permitiu uma maior aproximação de uma realidade escondida mas que afecta toda a nossa vida em sociedade. As chantagens, a propaganda, as técnicas. Tudo. Tudo o que dirige o nosso Estado num certo caminho. Certamente Clooney sabe, igualmente, fazer uma realização segura, quer em termos de argumento, quer em termos de sintonia com as personagens e os espectadores. Felizmente, também, Ryan Gosling não deixou o seu talento ser escondido pela grandiosidade que o seu nome tem vindo a adquirir ao longo deste ano. E Philip Seymour Hoffman demonstrou que nunca deixou de fazer bons filmes.

Aquele que podia ser visto pela maioria como um filme cliché, denunciador do que todos já sabem, arranjou um ângulo original para contar de outra forma a novela do mundo político: na pele de quem é e vive neste mundo. Stephen Meyers (Ryan Gosling) é um jovem novo e idealista que trabalha na campanha do novo candidato a presidente, o Governador Mike Morris (George Clooney). Aos poucos, Stephen descobre que cada vez mais o mundo da política não é um lugar para idealismos e vê-se envolvido num dos maiores escândalos que a política pode comportar, comprometendo, assim, a sua ainda curta carreira, bem como os objectivos do Governador.

Na minha opinião, o sucesso da história está muito relacionado com a química que existe entre cada actor, bem como com a naturalidade da sua representação. Sem dúvida que a Molly (interpretada por Evan Rachel Wood) atribui a toda a trama uma componente mais forte e mais emocional, fazendo a ligação de várias pontas soltas presentes no filme. O próprio Clooney, que poucas vezes aparece no filme apesar de ser uma das personagens principais, dá ao Nos Idos de Março um toque especial que há muito já não encontrava. Os planos da bandeira, dos debates, os contrapicados, as expressões de cada personagem compõem uma sinfonia perfeita e indestrutível. É na subtileza dos actos que está a verdadeira essência deste filme que espero encontrar na lista dos nomeados aos Óscares.

Poucos são os inícios que captam logo a atenção e poucos são os finais tão penetrantes e, de certa forma, perturbantes que dão ao filme o que ele precisa: um estilo, um sentido, uma questão que não está de todo ali para ser respondida; a resposta já fora dada ao longo de todo o thriller. Para mim, este é um dos melhores filmes do ano, e mesmo os mais cépticos sairão do cinema com a sensação de que soube a tanto e soube a pouco. Porque tanto queremos saber mais, como foi demasiado bom e só queremos contá-lo à próxima pessoa que encontrarmos. Afinal, acho que é quando esse meio sentimento de vazio e meio sentimento cheio acontece que se pode dizer que um filme foi verdadeiramente bom, não é verdade?

10/10

Título Original: The Ides of March

Realizador: George Clooney

Argumento: George ClooneyGrant HeslovBeau Willimon, baseado na peça Farragut North de Beau Willimon

Elenco: George Clooney, Ryan Gosling, Evan Rachel Wood, Marisa TomeiPhilip Seymour Hoffman

Género: Drama

Duração: 114 minutos