As luzes mitigam-se, o silêncio instala-se, quando senão emergem seis figuras vestidas de negro do fundo do palco. O público aplaude fervorosamente, como que prevendo os minutos inefáveis que se seguiam.

Fazem-se pequenos acertos, próprios da meticulosidade dos sons produzidos por Max e dos seus acompanhantes. Instalam-se o ruído e as interferências experimentais acompanhadas de belos acordes de violinos, viola e violoncelos – sabemos então que entrámos em Infra, o mais recente registo do experimentalista neoclássico Richter. Uma animação em vídeo, da autoria de Julian Opie, completa o cenário, num negrume em que circulam as pequenas personagens brancas pixelizadas que ilustram a cover do novo álbum. Anónimas, cruzam-se sem nunca se encontrar – Infra é, no fundo, uma viagem interior de mãos dadas com o vazio.

 Finalmente o piano de Max entra em cena. Se haviam dúvidas, depressa se mitigam. Max Richter, além de um compositor exímio, mostra-se um músico verdadeiramente dotado. Há tons azuis a escorrer pelo palco, a melancolia pintada em tons gélidos, tão cuidadosamente articulados com a entoação que se faz ouvir. Gemem as cordas e embalam-nos as teclas, naquilo que parece ser uma apresentação integral do álbum.

Infra 5, uma das faixas mais aguardadas, altera a plateia daqui para a frente, que responde com ovações que, apesar de merecidas, abafam as palavras que o silêncio propositadamente não diz, numa eloquente sequência ininterrupta em que qualquer abstracção nos faz regressar aos assentos do Teatro Maria Matos.

Sopra o vento em algumas das samples que Max controla computorizadamente, acompanhando instrumentos que nos fazem ocasionalmente lembrar reminiscências da obra de Philip Glass (especialmente sugestivas do filme The Hours). É este encontro inesperado da música ambiente com a música de câmara que Max Richter nos traz de tão peculiar e é nesta dinâmica que constrói a sua integridade artística, segundo sobreposições infindáveis e inventivas, caracterizadas por uma ruptura eterizada entre a ordem e desordem.

Após um intervalo, Max apresenta os cinco elementos da sua banda nas únicas palavras proferidas ao longo da noite, presenteando-nos logo de seguida com belíssimos temas de Memoryhouse e The Blue Notebooks, seus trabalhos anteriores. Há uma linha bem desenhada entre as duas partes do espectáculo, desde a profunda jornada emocional de Infra ao fundo do relicário jamais caído em esquecimento, que representa os álbuns anteriores.

Misturam-se cores quentes e frias, chuva e labaredas bem audíveis com a sensibilidade orquestral dos músicos de Richter e o seu piano sempre tão astuto, que subtilmente nos corrompe em The Trees, talvez o auge do esgravatar sentimental de toda a noite. O público, atónito, não se inibe desta vez, entre lágrimas e rostos nostálgicos, grato pela magnificência daqueles minutos.

Max e os seus músicos trocam modestos agradecimentos com a audiência, no final de uma experiência emocional quase terapêutica por tamanha pungência. Há coisas que não se repetem. Esta terá sido uma delas, numa noite em que a única certeza é a de que todas as palavras foram deixadas para trás.