Se a competição internacional do DocLisboa foi ganha por um filme português (É na Terra, Não é na Lua), não faltaram também grandes filmes nacionais nas competições portuguesas. Praxis, de Bruno Cabral, foi o vencedor da competição de curtas e Yama No Anata, de Aya Koretzky, conquistou o júri das médias e longas-metragens.

O Espalha-Factos analisou os dois filmes vencedores, bem como outras curtas, médias e longas-metragens da competição portuguesa e Coração no Escuro, fora de competição. Na primeira parte deste artigo, analisam-se algumas curtas da competição portuguesa.

Competição Portuguesa Curtas-Metragens

Praxis – 7/10

Antes de ser exibido, já se falava nele. Quando Bruno Moraes Cabral recolheu imagens, em espécie de estudo, para um documentário sobre as praxes académicas,  provavelmente não imaginou a repercussão que este teria.

Provavelmente, não calculava também que essas imagens seriam o documentário em si e não a sua preparação. Durante 29 minutos, assistimos a imagens recolhidas em várias cidades do país, onde os estudantes são integrados através de rituais de iniciação: as praxes. É comum a utilização de linguagem sexual explícita, são frequentes os jogos de poder e as constantes humilhações a que os novos alunos são sujeitos.

Tendo-se tornado objecto de análise, este não é um documentário polémico – traz ao debate um tema que, por si só, é polémico.

 

Tio Rui – 7/10

Em Tio Rui, assistimos a um retrato íntimo das 72 horas em liberdade de Rui Macedo, tio do realizador Mário Macedo. Numa visão muito pessoal, o realizador acompanha Rui durante todo o tempo, até ao momento em que regressa à prisão. Ao longo de todo o filme não percebemos o porquê de estar preso – não é isso que importa mas sim as suas relações com a família e com o tempo.

Monólogos sobre a efemeridade do tempo, sobre a liberdade, visitas a vizinhos, contacto com os animais, a família e a Natureza mas, sobretudo, a liberdade: Mário Macedo filma tudo de perto, num retrato que é o mais pessoal possível. Em 32 minutos, o realizador consegue encaixar todos estes elementos e conjugá-los à volta do tio. Como diria o Tio Rui, “É a vida”.

Matança – 6/10

A matança do porco nos Açores retratada por André Laranjinha. O realizador insere-se num ambiente familiar para assistir à tradição da matança do porco, durante um fim-de-semana.

O ritual que anteriormente durava vários dias e contava com a colaboração de toda a comunidade está hoje posto em causa pela necessidade de adaptação ao presente e interesse incutido nas gerações mais novas. As mães  ensinam as filhas, os pais contam com a ajuda dos filhos. O bispo da região aparece por lá para comer e largar um pequeno sermão sobre a necessidade de continuidade do ritual. E é isto.

Um documentário que não precisava de ser tão explícito para transmitir o que pretende. Não é necessário vermos e ouvirmos a faca a rasgar um animal para que fiquemos a par do ritual. É excessivo e perde pelo seu próprio exagero.

Golden Dawn – 6/10

Salomé Lamas afirma que é daquelas pessoas que odeiam andar de baloiço e tudo o que envolve movimentos ondulantes. Segundo a própria, a semana de rodagem de Golden Dawn foi a pior da sua vida, uma vez que as filmagens foram feitas no Mar do Norte, a bordo de um barco.

O filme retrata a vida de pescadores holandeses a bordo de um barco de pesca. Um trabalho árduo que merece ser mostrado, terminando com depoimentos de pescadores que sempre o foram, mostrando bem a dureza deste trabalho, não só física mas sobretudo psicológica. Uma interessante narrativa visual que por vezes é deixada para segundo plano por escolhas sonoras menos felizes.

A Máquina6/10

Miguel Guimarães Correia e Daniel P. Sousa apresentaram neste DocLisboa uma curta que pretende mostrar todo o trabalho num estádio que antecede um jogo de futebol. Os trabalhadores, as tarefas que ninguém vê, mas que são essenciais para tudo correr na perfeição. É todo o funcionamento dessa máquina que esta curta homónima pretende dar a conhecer.

Contudo, apesar da boa intenção dos realizadores, a ausência de depoimentos ou narração não abona muito a favor deste filme. Sente-se essa falta e, certamente, A Máquina sairia favorecida.


Horror no Bairro Vermelho (Prólogo Documental)7.5/10

Com o seu mais recente filme (O Barão) no cinema, Edgar Pêra marcou presença no festival com o prólogo inicial da sua próxima longa-metragem de ficção: Horror no Bairro Vermelho. Um parágrafo de The Call of Cthulhu, de Lovecraft, a ser repetido pelos actores, um foto-diário do campo de concentração de Auschwitz. O texto, de 1926, antecipa os holocaustos da Segunda Guerra Mundial.

Jogando sempre muito com a imagem, ao texto forte juntam-se, mais uma vez, o espectáculo visual. Um conjunto que resulta numa curta que chega a arrepiar.

Minas da Borralha7/10

Fábio Oliveira, Luís Brandão, Teresa Pinto e Tiago Afonso quiseram transformar as memórias dos antigos mineiros das minas da Borralha em filme e o resultado é muito positivo. Os testemunhos dos ex-trabalhadores e das suas famílias denunciam uma vida muito difícil e cheia de perigos. Com a pobreza e a precariedade muito presentes, Minas da Borralha apresenta relatos sobre as injustiças sociais, as violências laborais, os acidentes de trabalho, mas também o quotidiano de então desta comunidade mineira.

Os protagonistas conquistam-nos facilmente e as histórias que compõem este documentário foram muito bem escolhidas. Um conjunto de memórias tocantes, que não deixarão ninguém indiferente.

*Por Inês Moreira Santos e Renata Curado