Ceremonials é o novo álbum da intérprete Florence Welch e da sua banda the Machine, editado em época de Halloween. Este segundo registo já tem dado que falar, após o lançamento do vídeo What The Water Gave Me e o primeiro single oficial do álbum, Shake It Out.

Há um intenso simbolismo que circunda todo o novo trabalho, desde os títulos das faixas até à estética dos vídeos, e é precisamente esse traço tão evidente que torna as melodias tão míticas e emotivas. Ceremonials não podia ter um nome mais adequado.

Only If for a Night abre-nos as portas ao som de sinos, coro e vozes ecoantes, arrastando-nos para um emaranhado de texturas melódicas muito bem produzidas. A faixa assume, desde logo, o simbolismo que percorre todo o álbum, num momento em que os vocais de Florence e do coral atingem uma proporção quase épica. Segue-se Shake It Out, cuja percussão demarcada e a lyric vigorosa rapidamente nos fazem concordar com escolha do primeiro single.

httpv://www.youtube.com/watch?v=WbN0nX61rIs&ob=av2e

Numa onda mais lenta e melancólica, surge What The Water Gave Me, em que a mudança para um ambiente sombrio, apesar de brusca, se figura concordante com a sequência lógica do álbum. O tema tem fim com num belíssimo grito pop folk, assegurando-se como um dos pontos altos de Ceremonials.

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Never Let Me Go é a balada que faltava para a cerimónia estar completa. Com contornos clássicos e dramáticos, Florence arrasta um “Never let me go, never let me go!” profundo e veemente, exibindo aqui todo o requinte da sua voz. Um ritmo ingénuo e pueril apresenta-nos Breaking Down Again – a mensagem é clara, são ténues as fronteiras entre a alegria e melancolia.

Lover To Lover é uma clara inovação, modelada por gemidos da soul e um enérgico piano. Florence perde a compostura e desafia as leis dos encontros amorosos. No Light, No Light catapulta-nos para os tempos de Lungs, numa composição à qual Florence já nos deixou vagamente familiarizados. Há uma energia crescente, vocais arrastados e uma percussão épica bem coadjuvante. É então que se apresenta o auge do simbólico, em Seven Devils, que mais parece um cântico muito bem elaborado – há instrumentos de cordas, um piano de agoiro, o sopro do vento e todo um misticismo codificado. Quase se consegue sentir uma névoa  cair.

A percussão quente, sugestiva de um ritmo de corrida, de uma celeridade de busca e procura, acompanhada de repetidos versos que tão bem nos aconselham, “Just keep following the heartlines on your head”, narram a faixa Heartlines. Spectrum, com um ritmo igualmente incessante, revela-se uma faixa pouco interessante ou inovadora, que soma pontos somente pelo especial uso da harpa.

Florence compensa-nos com All This And Heaven Too, que apesar de distinto faz parte do todo e merece uma audição atenta. É um clamor poético à linguagem emocional, tão dúbia e complexa, cuja sonoridade parece condizer perfeitamente com um clássico de encantar da Disney.

A influência gospel é irrefutável em Leave My Body, a faixa final, em que se exige clareza e se procura libertar do mundo terreno e do encarceramento corpóreo, que não mais nos condicionam. É neste plano de tensões que se conduz a libertação, que é, no fundo, o término de todo o ritual.

Cerimonials não apenas vem afirmar o registo de Florence + The Machine, como nos traz algo de novo, uma sonoridade descomprometida e experimental, mesclando folk, pop, soul e toques subtis de barroco, num conjunto de melodias que encerram um círculo ao qual rapidamente nos convertemos.

Nota final: 8/10