Neste DocLisboa são vários os documentários que relatam casos que fogem ao comum, que se afastam do que é considerado “normal”, do preestabelecido na sociedade, de pessoas ou coisas que se evidenciam pela diferença. As curtas Susya, Twinset, Minhocão, Anne Vliegt, Koniec Lata e Surpriseville, e as longas-metragens Blue Meridian e Nachtschichten são bons exemplos, todas elas com o seu tipo de Outsiders.

Susya – 6/10

Nesta curta de Dani Rosenberg e Yoav Gross, é interessante ver como que os conflitos políticos e religiosos podem mudar vidas. Um homem de 60 anos, palestiniano, e o seu filho têm de pagar bilhete para visitar uma estação arqueológica de uma antiga colónia judaica, sendo essa a única forma que têm de regressar à sua aldeia natal, abandonada há 25 anos. Apesar do desenvolvimento do filme não ser extraordinário, o momento em que pai e filho chegam ao local onde foi em tempos a sua casa, seguido da chegada das tropas, e o comportamento destas, é realmente digno de ser visto.

Twinset – 7/10

Amy Rose apresenta um filme cheio da classe e elegância britânicas, duas características que também se aplicam à personagem principal de Twinset, um travesti. É interessante observar como tão bem é recebido pela mulheres idosas de Essex, com as quais se reúne frequentemente e toma chá e bolos. Ao mesmo tempo, é delicioso ouvir quais as grandes preocupações da mãe quanto às opções do filho, dos momentos mais divertidos desta curta-metragem.

Minhocão – 4.5/10

O que está em jogo nesta curta de Raphaël Grisey é a arquitectura, no caso a do complexo de habitação social – Conjunto Habitacional Pedregulho –, construído a partir de 1946 no Rio de Janeiro, e apelidado de Minhocão pelos seus moradores. O complexo está prestes a ser renovado após 50 anos de abandono por parte do Estado.

Minhocão teve estreia internacional no DocLisboa, no entanto, os seus 30 minutos de duração parecem ser demais para o espectador. A repetição inicial da fase de Affonso Reidy, sobre os seus preceitos da arquitectura moderna, por um carro munido de um sistema de som, parece inicialmente fazer sentido, mas, ao ser repetida até à exaustão, faz com que logo de início a atenção da sala se perca. O desenvolvimento do filme em volta do complexo habitacional em questão, tenta mostrar como é que ali se vive e a degradação (a vários níveis) daquele edifício, que em tempos fora uma excepção na arquitectura.

Anne Vliegt – 9/10

Uma das mais belas histórias deste DocLisboa, contada com uma sensibilidade e beleza grandiosas. É certo que a protagonista ajuda, assim como a sua doença, mas a realizadora Catherine van Campen trata tudo da forma mais sincera possível. Anne Vliegt é uma menina de 11 anos que sofre do Síndroma de Tourette, que leva o seu corpo a fazer coisas que ela não quer, como começar de repente a rodopiar ou a lamber tudo. A grande dificuldade da criança em controlar e em lidar com a doença é tocante e deixa qualquer um impressionado.

O medo natural de ser ridicularizada na escola que Anne sente e a forma como o tenta superar, assim como a alegria e força que demonstra no seu dia-a-dia são uma lição de vida para qualquer um que veja este filme. A frase com que a criança finaliza esta curta é tocante e demonstra como a doença já faz parte da personalidade de Anne, ou pelo menos ela assim a entende.

Koniec Lata – 8/10

Koniec Lata, de Piotr Stasik (que marcou presença na sessão e num posterior debate), mostra como é a vida dos estudantes na escola militar, em Penza, a 700 quilómetros de Moscovo. Neste filme, a escola é mostrada como uma instituição respeitável mas que parece acabar com a infância feliz dos seus estudantes.

O realizador tenta mostrar de que forma a educação dura influencia ou não os comportamentos das crianças que ali estudam, dentro e fora da escola. Para tal, acompanha os dias de três estudantes, um dos mais novos, um dos mais velhos e outro de idade compreendida entre ambos. Um retracto emotivo destas crianças que já têm em si a dureza dos adultos, mas que, fora da escola, ainda conseguem mostrar a pureza e inocência típicas da sua idade.

Surpriseville – 6.5/10

Tim Travers Hawkins esteve presente neste DocLiboa para apresentar a sua curta Surpriseville, que dá a conhecer a cidade de Surprise, no Arizona. Planeada ao pormenor, tudo ali se faz para tornar a vida o mais segura e agradável possível. Contudo, há regras rígidas, portões e muros por toda a cidade.

Ao ver esta curta, rapidamente se levanta a questão: Será que se é realmente feliz naquele local que, com tanta norma, se torna a si mesma triste? Os testemunhos dos habitantes variam. Há os que se sentem totalmente seguros e felizes por ali viver, há também quem se tenha desiludido com o passar do tempo. Um filme que abre portas à reflexão e onde houve um posterior debate com o realizador.

Blue Meridian – 6.5/10

Blue Meridian é a primeira obra de Sofie Benoot, que nos leva por uma viagem pelo sul profundo dos Estados Unidos, arruinado e estafado. Acompanha-se o rio Mississipi do Cairo, em Illinois, até Veneza, no Louisiana.

Aqueles são locais tristes e bastante destruídos, em alguns casos devido a furacões, por exemplo. São zonas quase abandonadas, mas onde os que restam parecem gostar de ali viver. Todos esses locais têm em comum o facto dos seus habitantes se apoiaram na religião e na música para continuarem em frente.

Nachtschichten – 7/10

Na secção Riscos, Nachtschichten (Night Shifts), de Ivette Löcker, traz até nós uma interessante visita pela noite de Berlim e seus protagonistas. Na noite gelada, cruzamo-nos com seguranças, sem-abrigo, uma DJ japonesa, graffiters  e outros berlinenses que “escolhem” viver à noite.

Ivette Löcket intercala as histórias de cada um de forma muito bem conseguida e cativante. O gélido Inverno de Berlim ajuda a que se crie uma espécie de calor humano entre o espectador e as personagens do ecrã da sala, e a empatia criada é inevitável. Nachtschichten revela-se um interessante exercício e mostra como a noite pode ser uma forma de libertação para alguns ou, por outro lado, uma batalha/prisão para outros, como no caso dos sem-abrigo que procuram um local seco para dormir. Acima de tudo, este documentário é uma boa forma de nos confrontarmos com realidades das quais pouco se conhece.

Inês Moreira Santos