Não há muitos laços tão fortes como os laços de família, mas estes nem sempre são tão inquebráveis como aparentam. Em Sangue do Meu Sangue, João Canijo faz o retrato de um país através de uma família fragilizada, ao mesmo tempo que enaltece a figura feminina e faz a apologia do amor incondicional. Um filme de interpretações que não nos pode deixar indiferentes, pois trata da história de todos nós.

Márcia está no centro da história, apesar de esta se passar sobretudo à sua volta. É na sua humilde casa, nos subúrbios de Lisboa, que vive com os dois filhos e a irmã, Ivete. Quando a filha Cláudia se apaixona por um homem casado e mais velho, Márcia procura interceder e terminar a relação. Por seu lado, o irmão João Carlos envolve-se em negócios estranhos com um traficante de droga e é a tia quem vai procurar ajudá-lo.

Enquanto Márcia está muito ligada à filha, Ivete é muito próxima do sobrinho, mostrando-se mais maternal e preocupada do que a própria mãe. Ambas procuram lutar pela dignidade dos jovens, ainda que para isso tenham de sacrificar algo que lhes é precioso. E observamos constantemente o amor incondicional sentido por estas mulheres, intrinsecamente ligado à ideia de protecção, de sacrifício, de dor. À ideia de laços de sangue, também.

O enaltecimento da mulher acontece nos actos das duas protagonistas, de uma profundidade tremenda, interpretadas por duas actrizes enormes. Rita Blanco é sempre muito natural, espontânea, delicada, protagonizando não só alguns dos momentos mais dramáticos como também os poucos momentos mais relaxantes que o filme nos oferece. Quanto a Anabela Moreira, tem um papel tão ou mais importante e soube pegar nele com grande mestria, entregando-se totalmente ao filme. A sua Ivete, infeliz com a solidão dos 33 anos e a falta de amor, é uma personagem muito rica graças à sua excelente interpretação.

As boas interpretações prosseguem, num verdadeiro filme de actores, que se sobrepõem à história. Nuno Lopes, sempre surpreendente em papéis dramáticos, com o seu drug dealer, Telmo; a jovem Cleia Almeida, uma ingénua e apaixonada Cláudia, que se revela neste filme; e Rafael Morais, um Joca apenas compreendido pela tia. Outros nomes se destacam positivamente, como Francisco TavaresBeatriz Batarda, Fernando Luís, Teresa Tavares e Marcello Urgeghe.

Tudo acontece num ambiente tão natural, tão real, tão dramático, tão violento, até, que a realidade se confunde com a ficção e aqueles excelentes diálogos podiam estar a acontecer na nossa própria cozinha. A forma como João Canijo conta a história e como o espectador a recebe é de uma crueza medonha. E no fundo essa naturalidade reflecte-se no retrato que é feito do país em que vivemos: as dificuldades de uma família de classe baixa, que vive numa casa minúscula, numa zona mal frequentada.

A forma simples e tocante com que Ivete abraça Joca quando este está magoado, a espontaneidade do pacote de leite com chocolate que surge nas cenas finais e a primeira refeição em família são grandes exemplos do argumento eficaz e da realização delicada, que fazem o filme valer a pena. Os planos de pormenor e as cenas em simultâneo, algo frequentes, obrigam-nos a focar apenas uma cena, ou a tentar acompanhar duas conversas ao mesmo tempo, exigindo por isso mesmo uma maior atenção. É uma boa técnica aqui utilizada pelo realizador para cativar o espectador.

Também a fotografia é louvável, captando na perfeição a degradação da zona suburbana e o contraste com a residência do amante de Cláudia e da sua família, por exemplo. Apenas o argumento pode ser acusado de um certo exagero de dramatismo, ao englobar as histórias dos dois irmãos, e de uma certa previsibilidade à medida que o filme vai decorrendo. No entanto, do início para o fim, a imprevisibilidade acaba por dominar.

E um final como este é tudo menos aguardado – estamos sempre à espera de saber mais e não nos lembramos que os realizadores portugueses gostam de deixar algumas pontas soltas. Ainda bem que assim é. João Canijo merece os louvores que este seu Sangue do Meu Sangue tem recebido lá fora e os números que os têm demonstrado cá dentro. É mais um sinal de que temos de começar a aprender que ‘o que é nacional é bom’, sobretudo quando um filme nos retrata de forma tão realista. É impossível sair indiferente da sala de cinema.

8/10

Ficha Técnica:

Título original: Sangue do Meu Sangue

Realizado por: João Canijo

Escrito por: João Canijo

Elenco: Rita Blanco, Anabela Moreira,  Nuno Lopes, Rafael Morais, Cleia Almeida, Francisco TavaresBeatriz Batarda, Fernando Luís, Teresa Tavares e Marcello Urgeghe

Género: Drama

Duração: 140 minutos