É, sem sombra de dúvidas, um dos filmes do ano e as nomeações aos Óscares estão decerto garantidas. O livro, de Kathryn Stockett, fora já um êxito e o filme seguiu-lhe os passos. As Serviçais chegou finalmente a Portugal após o grande sucesso feito por terras norte-americanas.

Tate Taylor, que costuma estar do outro lado das câmaras, aventurou-se nesta que é a sua segunda longa-metragem como realizador e o resultado não poderia ser melhor. As Serviçais é um filme com tanto de doce como de cruel, e que faz com que se crie, desde o início, uma relação de cumplicidade com as personagens, de tal modo que estas parecem reais e que estão bem ali ao nosso lado.

Uma história de coragem, que retrata a realidade vivida no Mississippi durante os anos 60. As Serviçais conta como três mulheres extraordinárias e muito diferentes constroem uma amizade quase improvável, em torno de um projecto secreto que quebra todas as regras sociais da época, colocando-as em risco. Skeeter (Emma Stone), ao perseguir o seu sonho em se tornar escritora, alia-se a Aibileen (Viola Davis) e a Minny (Octavia Spencer) e, juntas, iniciam um livro onde contam, na primeira pessoa, histórias das mulheres negras que criam as crianças das famílias brancas, mas que, ainda assim, são alvo de grandes preconceitos devido à cor de pele. Esta irmandade, de uma coragem inigualável, quer consciencializar a sociedade de que há limites que têm de ser ultrapassados.

Apesar de, à primeira vista, poder parecer mais um filme sobre racismo e desigualdades entre negros e brancos, As Serviçais vai muito para além disso. Inserido num momento histórico marcante, não faltando durante o filme diversas referências a Martin Luther King, pretende mostrar-se a história de coragem destas três mulheres e como elas próprias, entre si, conseguem ultrapassar as suas diferenças e contornar os perigos que as ameaçam. As três protagonistas deparam-se, não somente juntas, mas também individualmente, com desafios e problemas que têm de superar. E todas elas mudarão, de uma forma ou de outra, a sua maneira de ver o mundo, a sociedade e elas mesmas.

Todas as personagens foram cuidadosamente estudadas e retractadas. A decidida e persistente Skeeter que nunca recebera o carinho suficiente por parte da família e fora sempre vista como um “patinho feio”. Aibileen, ponderada mas magoada, nunca tendo superado a morte do filho. Minny, a personagem que mais sorrisos arrancará, sem papas na língua e com uma personalidade muito forte.

E às protagonistas juntam-se Celia Foote, de extrema importância para mostrar como as aparências iludem, para o melhor e para o pior, sendo ela uma das peças importantes no desenrolar da história de Minny. E falando na personagem de Octavia Spencer, também Hilly será decisiva no seu caso. E que personagem mais execrável, que consegue pôr toda a sala de cinema a odiá-la. Já Elizabeth Leefolt e a sua relação com a filha Mae Mobley é um óptimo exemplo de como eram as mães brancas para com os filhos “menos favoritos”. E mostra-se de forma comovente como as amas (no caso Aibileen) se tornavam muito mais importantes para as crianças do que a própria família. A saída de Aibileen de casa dos Leefolt é de partir o coração.

O elenco foi extremamente bem escolhido e as interpretações são formidáveis. Emma Stone continua a provar que é uma grande promessa e interpreta uma teimosa e divertida Skeeter. Por sua vez, Viola Davis (já nomeada ao Oscar de melhor actriz secundária em 2009, pelo seu papel em Dúvida) tem talvez a melhor interpretação de As Serviçais, e parece-me uma excelente candidata aos Oscares do próximo ano. Na pele de Minny, também Octavia Spencer se sai muito bem, com uma das personagens mais caricatas do filme. Jessica Chastain conquista pelo papel menos comum que lhe coube e oferece uma simpática e desajeitada Celia. Bryce Dallas Howard merece igualmente destaque por tão bem encarnar a personagem menos querida do filme, Hilly. Na pele da mãe de Skeeter, Allison Janney tem também uma bela interpretação.

Para além do guarda-roupa invejável e do excelente trabalho de fotografia, a banda sonora, cheia de grandes nomes como Ray Charles, Bob Dylan ou Mary J. Blige, por exemplo, é outro ponto forte deste filme.

Encantador, comovente, mas, mais que isso, As Serviçais consegue contar a história a que se propõe da melhor forma possível, com momentos de humor muito bem conseguidos, mas sempre sem cair em exageros e não esquecendo que se está perante um drama. Atenta a pormenores importantes, tomando o tempo necessário com cada caso, com cada personagem, o filme nunca deixa que uma das três protagonistas se sobreponha às outras duas. São as três “heroínas” que dão uma lição de coragem a qualquer um que veja este filme. Um filme para rir e chorar, e onde as mais de duas horas passam a correr.

9/10

Ficha Técnica

Título original: The Help

Realizado por: Tate Taylor

Escrito por: Tate Taylor (screenplay), Kathryn Stockett (romance)

Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard

Género: Drama

Duração: 146 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos