A 12ª Festa do Cinema Francês não pára e o dia 9 de Outubro, Domingo, foi uma boa prova disso. Para além de dois filmes de animação, Le Marchand de Sable e de L’Illusionniste, o dia ficou assinalado por três antestreias, duas delas marcadas pela participação de Maria de Medeiros.

A actriz portuguesa marcou presença nas sessões de HH – Hitler à Hollywood, ao lado do realizador Frédéric Sojcher (a crítica ao filme pode ser encontrada aqui) e na sessão de Ni à vendre, ni à louer ao lado de Pascal Rabaté, realizador do mesmo.

L’ILLUSIONNISTE – 8/10

L’Illusionniste, um dos nomeados aos Oscar deste ano na categoria de melhor filme de animação, chegou ao São Jorge este domingo para encantar e espalhar magia. Depois dos filmes de sábado, Sylvain Chomet conta com mais este na Festa do Cinema Francês.

Com a revolução do rock e as sua vedetas, o ilusionista percebe que pertence a uma categoria de artistas em vias de extinção como os acrobatas, palhaços, malabaristas ou ventríloquos. Cada vez com menos trabalho, ele é obrigado a deixar Paris e parte com o seu coelho para Londres. Contudo, a situação mantém-se e o mágico vê-se obrigado a aceitar fazer apresentações em pequenos teatros, cafés e num pub numa aldeia escocesa. É aí que conhece Alice, uma menina inocente que vai mudar a sua vida e com quem parte para Edimburgo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=N6l3BdVwv9k

Chomet adaptou um argumento de Jacques Tati e é fácil perceber a sua presença ao longo de todo o filme, começando, claro, pelo protagonista Tatischeff (quem mais poderia ser). Uma banda sonora também ela mágica, e também composta por Chomet, acompanha este filme quase mudo e completa-o de uma forma perfeita.

L’Illusioniste é uma comédia dramática, cuja história se centra na decadência de certas profissões, mas também no carinho do mágico pela jovem Alice. A mudança dos tempos e das gerações e tudo o que isso acarreta contado com uma sensibilidade e beleza incríveis.

NI À VENDRE, NI À LOUER – 7,5/10

Na apresentação do filme, que teve lugar antes da projecção do mesmo, liberdade foi a palavra apontada pela organização do festival e por Maria de Medeiros – que fala também em rigor – para definir a película.

O filme que não recorre a qualquer diálogo e que se destacou no Festival de Cinema de Karlovy Vary deste ano por ter arrecadado o prémio de melhor realizador para Pascal Rabaté (que se notabilizou também no campo da banda desenhada) mostra-se uma agradável surpresa para o público.

Esta é a história de várias pessoas, sobretudo casais, que decidem passar um fim-de-semana na praia. Aí as mais diversas situações sucedem-se, intrigando o espectador sobre o porquê do seu acontecimento e o seu eventual desfecho.

Num humor bastante leve, mas não menos poderoso por isso, o filme apodera-se bastante bem das situações caricatas que vão tomando lugar e conduzem a audiência à gargalhada. Personagens, frutos de boas interpretações, que evidenciam uma natureza caricaturada própria da banda desenhada, agradam ao público e fazem-no continuar pegado ao ecrã.

Se a palavra não marca presença no filme, a verdade é que nenhuma história fica por compreender. As imagens, as expressões faciais, os enquadramentos são alguns dos elementos que conduzem para que a trama não seja algo colocado de parte, apesar da ausência verbal. São várias as narrativas paralelas com um pendor um tanto ou quanto nonsense que acabam por encaixar perfeitamente, devido ao bom fio de narração traçado por Pascal Rabaté.

Uma forma diferente de encarar o humor numa época em que ele parece depender muito da palavra escrita e falada. Rabaté surpreende e cativa o público pela pureza do humor que é cada vez mais difícil de encontrar.

por Wilson Ledo e  Inês Moreira Santos