Com o aproximar da grande final da primeira edição de Masterchef, o Espalha-Factos publica um olhar sobre a forma como os programas de culinária se assumiram nos últimos anos na televisão. Na próxima semana, fica para ler um balanço do primeiro talent show dedicado à cozinha em Portugal.

A Culinária evidenciou-se nos últimos anos como um produto televisivo em evolução. A comida na televisão tem cada vez mais espectadores e mais espaço nas grelhas, sobretudo devido à profusão de canais por cabo operada na última década e que possibilitou o crescimento de nichos, no que toca à programação. A televisão não permite de forma alguma uma experiência semelhante à de quem cozinha, mas o aperfeiçoamento dos formatos e conceitos alicia.

A maneira como se constrói um programa de culinária mudou bastante nos últimos tempos. O público tornou-se mais exigente e não basta, neste momento, um chef a cozinhar indiscriminadamente numa bancada. Os propósitos para cada programa são importantes e, hoje, os programas de cozinha estão permanentemente sujeitos a um tema e a um conceito, um enquadramento do objecto. Um exemplo indubitável disso será o programa The Delicious Miss Dahl, em que a modelo e escritora Sophie Dahl cozinha, em cada episódio, de acordo com o seu estado de espírito: pratos para os dias melancólicos, egoístas, festivos.

Este será um programa, em vários aspectos, paradoxal daquilo que este mundo tem oferecido ao público. À frente das câmaras, uma personagem icónica. Sophie Dahl não é (e foi muito criticada por isso) chef. Mas toda a sua persona e a maneira como conduz o programa é singular. É desta forma que se seguem estes anfitriões, como se seguem opinion makers, interessados no que vai dizer e fazer ou o que pensa, ou como se seguem personagens de uma série, querendo ver o desenrolar da sua história.

A generalidade dos programas apresenta chefs, numa tentativa de legitimar o que ali se faz, e ainda de aproximar a cozinha do amador. Dar a ideia de “você pode facilmente fazer isto em casa” é provavelmente o único ponto em comum a todos estes conteúdos, desde os anteriores a Filipa Vacondeus a Jamie Oliver, nos seus programas de comida para o dia-a-dia: fácil, rápida e deliciosa.

Esta tendência de aproximar o gourmet de um chef dono de restaurantes caríssimos da quotidianidade de alguém que quer despachar-se é como um movimento de democratização que não está presente apenas neste género de programas. Tornar tudo acessível a todos é um movimento que, com algumas interrupções, a sociedade experiencia desde que ouviu falar em democracia.

Esta evolução dos valores de uma sociedade acompanha a realização destes programas e o conceito que lhes é adjacente. Tirou-se, na sociedade como nos programas de culinária, o foco da mulher no que toca à cozinha. Estes programas são hoje para a família. O seu narratário deixou de ser a dona de casa e passou a ser aquele que se interessa por uma visão da comida que vai para além da necessidade de se alimentar.

Também neste sentido surgiram programas com uma perspectiva quase pedagógica sobre a culinária e os ingredientes. A ideia de que a cozinha e os ingredientes podem ser objecto de um conhecimento mais profundo foi bem visível no programa O Sentido do Gosto, com José Bento dos Santos, e mais recentemente em Ingrediente Secreto, com Henrique Sá Pessoa, ambos apostas da televisão pública.

Actualmente, para lá de formatos e conceitos por de trás de programas, o que elevou a culinária no âmbito da televisão à febre por que passa neste momento, foi muito provavelmente a impressão estética que a televisão veio concedendo sobre estes objectos. Na televisão tudo se pode tornar apetecível. Na televisão, a feijoada, para além de ser fácil de fazer, é requintada e bonita.

E não é só o prato que é alvo de fascínio e preocupação estética. Todo o ambiente em que se desenrola a acção é cuidado. A cozinha e a casa em que Sophie Dahl gravou The Delicious Miss Dahl fez correr muita tinta na imprensa inglesa, sobretudo por não lhe pertencer a si, mas antes a um fotógrafo riquíssimo. Toda aquela aparência de estar a cozinhar caseiramente no conforto do lar era afinal falsa, a bem do mundo estético que o programa criou.

A aparência, a imagem e a beleza é provavelmente o que colmata o facto de o espectador não estar a viver a experiência de cozinhar enquanto assiste a um destes programas. A realização do programa, com os seus inúmeros planos, é capaz de nos tornar dispensável tudo o resto que torna completo o acto culinário. A imagem tornou-se sem dúvida o ponto imperante, capaz de nos fazer esquecer que temos outros sentidos.