Quando um reputado encenador assume o papel de protagonista de uma peça o público cala-se e senta-se. É este o momento em que aguardam ver o que por vezes não vêem. Um encenador a quem é atribuída a responsabilidade de interpretar a peça desvenda o que se passa nos ensaios. Há sempre aquela curiosidade miúda de saber como é que ele exemplifica aos seus actores quando se preparam para o espectáculo, porque desse mesmo momento se trata, do momento em que o encenador exemplifica da forma mais fiel quanto possível há a sua leitura da personagem.

Não é um acontecimento único na história recente do teatro português. Nuno Carinhas, cuja parceria com o Teatro Nacional São João é já de longa data, também pisou o palco recentemente em T3+1 com dois monólogos de Tchekhov ‘O Canto do Cisne’ e ‘Os Malefícios do Tabaco’. De uma forma magistral, Carinhas interpretou duas vezes ‘O Canto do Cisne’, mas com a leitura de dois encenadores distintos. Carinhas, entrou em cena para fazer uma homenagem ao seu próprio artífice, ao representar a mesma peça de uma forma tão distinta, complexa e interessante que conseguiu mostrar ao público a importância do encenador sobre o produto final.

De Diogo Infante exigia-se isso. Ou talvez ainda se exigisse mais, exigia-se que nos mostrasse o porquê da mediatização de que beneficia e até da institucionalização que o emprega. O problema é que mesmo olvidando estes factos e baixando, consequentemente, a fasquia, Diogo Infante continua a não passar no teste. Primeiro, a sua interpretação da sua personagem Salieri, kapellmeister da corte Habsburga, é no mínimo banal. Esganiça a voz quando faz de velho, representando Salieri quando era velho, e graceja fidalgamente quando representa a mesma personagem quando é nova. Segundo, alinha cúmplice em trazer ao principal palco do teatro português uma peça claramente banal.

A fórmula escolhida pelo dramaturgo Peter Shaffer é do mais trivial que alguém poderia ter escolhido. Salieri quando se encontra às portas da morte resolve confessar que matou Mozart. A acção entra então num melancólico flashback onde nos é contada a dificuldade que Mozart teve para se institucionalizar na sociedade austríaca, por ver as suas portas vedadas por músicos banais louvados pelas massas como o conservador kapellmeister. No final da peça o público no Maria II levantou-se em apoteose, aplaudindo de pé e gritando ‘bravo’! Qualquer parecença com a realidade é de uma ironia mórbida. De alguma forma é ainda essa a forma mais eficaz com que Diogo Infante poderia ter encontrado para encarnar a sua personagem, sendo simplesmente ele, tão só ele, a representá-la.

Fazer uma peça sobre a história de Mozart é um intuito louvável. No entanto interessa representar verticalmente a sua personagem, não encaixar em Mozart mais um molde típico que faz o ‘povinho’ rir. Mozart representado por Ivo Canelas é apenas um tonto que não sabe socializar e que gosta de levar palmadinhas no rabo da mulher. Apresentando-se sempre com um ar afeminado, rouba risadas à audiência com um humor revisteiro e tiradas ditas entre-dentes.

A caricaturizaçao das personagens é comum. Mozart, o tolo, o Imperador Joseph II, o inculto, Salieri, o invejoso, a mulher de Mozart, a libertina. E claro a palavra ‘merda’, se ninguém disser ‘merda’ numa peça de teatro em Portugal, então simplesmente não é arte. Aliás, como se poderia dizer… cinema português tem de ter sexo, teatro tem de ter palavrões. Cá em Portugal ‘semos’ assim, brutos e fogosos.

Ivo Canelas senta-se no cravo para mostrar ao Imperador a sua composição, quando começa a tocar no cravo ouvem-se violinos na sala. Se tudo isto fosse metafórico era bem melhor.