Todos nós receámos, consciente ou inconscientemente, pelo eterno retorno. O medo de entrar num ciclo imenso, cheio de repetições e rotinas, numa realidade única e imutável. A ideia de mudança aparece, assim, como que um D. Sebastião que nos salva dos tormentos do quotidiano. É, portanto, fácil de entender o ódio que temos pelo “agora”, pelo momento atual, e como o saudosismo é tão caraterístico no ser humano. A idade de ouro será sempre a passada, o mundo que nunca conseguiremos explorar.

Woody Allen, com Meia-noite em Paris, vem tentar desconstruir precisamente essa ideia saudosista e a necessidade de vivermos em outras épocas. Para tal, coloca Gil, um romancista americano interpretado por Owen Wilson, a partilhar os seus últimos dias de solteiro com a sua noiva, Inez, interpretada por Rachel McAdams, em Paris. Gil, que está a terminar o seu romance, vive apaixonado por Paris dos anos 20 e as suas noites de boémia que reuniam todos os grandes artistas americanos e europeus. Por esse emocionado saudosismo, Inez condena-o constantemente, exaltando o facto de Gil viver sempre alienado da realidade presente.

Mas é só quando Allen confunde o espectro espácio-temporal e faz com que Gil viaje até os anos 20, que a verdadeira prova começa. Aí Gil conhecerá os seus ídolos literários, como Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway.  E é só numa realidade passada que Gil acaba por denotar que, tanto ele, como a sua escrita, se alienaram da sua própria realidade e se perdem a si mesmos em tons dramáticos e melancólicos. É a própria Gertrude Stein, interpretada por Kathy Bates, que sugere a Gil que um escritor deve encontrar caminhos e respostas e não perder-se neles.

Com Meia-noite em Paris, Allen tem dois objetivos bem claros. O primeiro foi já referido acima. Desmistificar a ideia de uma “época de ouro”, aliada fortemente ao saudosismo. Em segundo lugar e de uma forma muito mais residual, Allen pretende-nos apresentar uma cidade. O mesmo que já vez com Barcelona, por exemplo, em Vicky Cristina Barcelona, a primeira personagem que nos é apresentada, numa longa e interessante sequência que comporta o nascer o viver e o morrer de um lugar, é a própria cidade de Paris, que aqui funciona para além da sua função cénica. Woody Allen faz o retrato de uma das cidades mais fotogénicas da Europa, no seu todo temporal, englobando, não só o presente, mas também os loucos anos 20.

Mais que um estudo sociológico, Meia-noite em Paris é uma experiência cinematográfica, que joga com as já tão recorrentes possibilidades do cinema caminhar pelo espaço e pelo tempo à velocidade da luz. Desta forma, Meia-noite em Paris vem juntar-se a um leque de experiências narrativas que Allen tem vindo a realizar ao longo da sua carreira. Nela, temos tudo o que caracteriza o realizador, em termos de narrativa. Relações atribuladas, ou pelo menos duvidosas. Uma mistura recorrente do cenário com o fluxo narrativo. A própria personagem de Owen Wilson retém, nos seus maneirismos e diálogos, o eterno arquétipo de Allen, o hipocondríaco, quase esquizofrénico, incompreendido homem que se perde facilmente nas suas ideias.

Provavelmente uma das melhores obras de Woody Allen deste novo milénio, onde, ao contrário de muitas delas, o realizador procura algo mais do que sintetizar todo o seu trabalho num filme.

8/10

 

Ficha Técnica

Título original: Midnight in Paris

Realizado por: Woody Allen

Escrito por: Woody Allen

Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Michael Sheen, Carla Bruni, Marion Cotillard, Adrien Brody e Kathy Bates

Género: Romance, Comédia

Duração: 94 minutos